Foram as 922 páginas mais prazerosas que já li até hoje. Poucos são os autores que conseguem segurar um leitor numa obra tão extensa como esta sem perderem o foco e começarem a enrolar, e isto é algo do qual não podemos acusar Eiji Yoshikawa.
Pra começar, seu estilo é muito simples, suas descrições de cenários são muito econômicas e objetivas, e ainda encontram espaço para metáforas inspiradas e poéticas, sem fazer usar de um vocabulário rebuscado e tomar um espaço desnecessário da história em si.
Outro elemento que se destaca na obra são os diálogos. Todos têm uma fluidez que torna a leitura agradável, pois os personagens, mesmo aqueles que falam de uma maneira mais "formal", conversam como pessoas normais, e não como "personagens de um livro". Neste ponto a tradutora Leiko Gotoda merece méritos pela excelente adaptação do texto para o nosso idioma.
Mas é claro que a história não teria essa capacidade de conduzir o leitor com tanta eficácia se não existissem personagens cativantes e marcantes, e Musashi está cheio deles, a começar pelo protagonista, de personalidade forte, impulsiva, que esconde por trás de sua agressividade e imprevisibilidade uma sabedoria conquistada ao longo de uma dura e longa jornada que temos o prazer de acompanhar desde o início.
Otsu, eternamente apaixonada por Musashi, também conquista nossa simpatia por não ser apenas uma mocinha chorosa, que fica lamentando o tempo todo (embora ela tenha sua parcela de lamentações e choros ao longo da história), e suas aventuras ao lado de Joutaro funcionam como subtramas divertidas.
Além deles, temos o monge Takuan, que é um dos personagens mais engraçados e carismáticos da saga de Musashi, cujas poucas aparições sempre rendem ótimos momentos de sabedoria regados com muito humor. E não podemos esquecer dos tragicômicos Matahachi e Osugi.
Com uma seleção variada e muito bem trabalhada de personagens, uma trama que flui com segurança e jamais se torna maçante, ótimas seqüências de luta, várias lições de filosofia oriental e história do Japão, Musashi é uma obra-prima que merece a adoração que conquistou desde sua publicação. Nada menos do que o merecido para o nascimento de uma lenda.