"[...] como então aos homens as vinganças excessivamente fortes tornam-se odiosas aos deuses"
Nesta parte das Histórias, Heródoto conta a conquista persa dos territórios da Cítia, território na Eurásia (atual Rússia, Polônia, Ucrânia, Bulgária etc.) ocupado por povos nômades, iniciando pela invasão de Dario da região, objetivando vingar a invasão da Média feita pelos citas. Ao relatar a fundação da Cítia, Heródoto mistura mais uma vez história e ficção, contando como Héracles (o nome grego de Hércules - este romano) teve relações com uma criatura metade mulher e metade víbora, durante seus doze trabalhos, e que um filho fruto desta relação foi o fundador do povo cita. Após o relato sobre a conquista da Cítia, Heródoto passa à Líbia, mais uma vez discorrendo sobre os povos da região e seus costumes, antes de passar à conquista persa da região.
É claro que, mantendo suas características, Heródoto discorre extensivamente sobre as mais diversas características dos povos que os persas conquistam, desde o modo com que enterram seus mortos, suas divindades e o modo das relações entre os indivíduos - incluindo canibalismo e outros comportamentos bizarros. Infelizmente, tais relatos, por vezes, acabam sendo enfadonhos e confundindo o leitor, que se perde na leitura e na cronologia dos fatos. O próprio Heródoto faz um mea culpa neste livro, dizendo que costuma, sim, fazer digressões. E algumas excessivamente longas, que cortam a narrativa na metade e, quando ele volta à narrativa que havia interrompido, é impossível lembrar-se do que estava sendo exposto. De fato, as notas de rodapé da edição da Edipro são fundamentais - por vezes um pouco excessivas - para que isso não ocorra, e no fim do livro tive que ler novamente as partes recomendadas pela nota, após a digressão de Heródoto, para que eu pudesse me situar novamente na narrativa - afinal, ele havia passado em torno de 20 páginas descrevendo as características do povo, interrompendo uma narrativa da conquista de Cirene.
Algo constante na narrativa de Heródoto, vê-se claramente o contraste que ele faz entre seus costumes (de um cidadão grego) e o dos outros, chamados de bárbaros. Apesar de não fazer um juízo de valor quanto aos comportamentos que narra - canibalismo, devassidão sexual, entre outros -, durante as apresentações orais das Histórias certamente havia um assombro dos ouvintes quanto ao modo de vida destes povos. Ademais, é interessante notar já uma referência à "fleuma", um dos quatro humores que causariam as doenças conforme uma teoria que reinou hegemônica na Medicina por vários séculos, e donde vêm, inclusive, os quatro temperamentos (sanguíneo, fleumático, colérico, melancólico).
Apesar dos problemas enfrentados durante a leitura, é um livro recomendado para quem se interessa no assunto - afinal, é o autor que fundou a própria História. E, como de praxe, em uma belíssima edição da editora Edipro.