Parte I:
Logo cedo Edir desenvolveu uma característica peculiar, observada pelo tio Amarílio Macedo, irmão de dona Geninha, conhecido como Missô (corruptela de meu senhor): Sempre que ia comer alguma coisa, se escondia. Não gostava de dividir nada com ninguém. Era muito desconfiado. E esperto também, disse, lúcido aos 94 anos. O sobrinho, acostumado a observar a lida do pai no armazém, tinha com o dinheiro a mesma relação que tinha com a comida. Tirava escondido do bolso, para ninguém ver, pequenas quantias que ganhava dos familiares.
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Parte II:
O bispo desdenha dos cálculos oficiais. Em sua contabilidade particular, a Universal enxerga uma legião de adeptos bem mais expressiva. Ele costuma proclamar a conquista de 7 milhões de fiéis em território brasileiro, e mais 2 milhões no exterior. Estudiosos como Ricardo Mariano admitem a possibilidade de distorções em razão da metodologia do IBGE os dados são obtidos por meio de amostragem e, diante da pergunta qual é a sua religião, grande número dos entrevistados se identifica apenas como evangélico. O número de fiéis incluídos nessa classificação, sem vinculações com igrejas, é elevadíssimo: 9,2 milhões. Assim, na avaliação de Mariano, seria razoável, e não causaria surpresa, se 2 milhões deles fossem adeptos da Universal.
Independentemente da controvérsia, a Universal continuou chamando a atenção mais do que qualquer outra denominação evangélica. A instituição se espalhou pelo Brasil e se expandiu mundo afora. Atualmente seu site registra presença em 95 países, nos cinco continentes, mas em geral o bispo propaga números inflacionados. Em sua biografia, em 2007, ele enumerou 172 países, e foi essa cifra que o advogado Arthur Lavigne citou em representações ao Judiciário, para ressaltar a força da instituição ao redor do mundo. Outros números apresentados pela igreja são relevantes e significativos: 14 mil pastores; 320 bispos; 7157 templos no Brasil; e outros 2857 no exterior.
Macedo encontrou mais dificuldades para crescer em pequenos munícipios interioranos, como a sua Rio das Flores, predominantemente católica e conservadora. A pregação neopentecostal turbinada com um discurso de autoajuda acenava com possibilidades de sucesso e prosperidade financeira por meio do empreendedorismo. Tal discurso encontrava maior receptividade junto aos trabalhadores dos grandes centros, principalmente nas periferias, atingidas com mais intensidade pelo desemprego e subemprego, desde o início dos anos 1980.
A ascensão era estimulada por meio do trabalho autônomo. Quem trabalhasse duro venceria com as bênçãos de Deus o progresso na vida econômica viria como uma contrapartida da aliança com Deus, explicou o antropólogo da Unicamp Carlos Gutierrez. Na religião, os fiéis encontram incentivo e apoio, desenvolvem a autoestima e encaram as agruras da vida com mais esperança. Novos interesses emergiam. Se, nos anos 1970 e 1980, a ala progressista do catolicismo politizava os trabalhadores a partir das discussões de suas reivindicações sociais, as igrejas evangélicas passavam a conquistar adeptos acenando com o sucesso calcado no êxito pessoal.
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