Romance de estreia do peruano Daniel Alarcón, "Rádio Cidade Perdida" (2007) foi escrito seis anos antes de "À Noite Andamos em Círculos" (2013) e é um registro literário bem menos maduro de sua prosa. Narrado com uma frieza quase alheia aos dramas de seus personagens, num timbre monótono que poucas brechas nos dá para identificação com suas histórias, o livro parece ser um espelho formal do duro ofício de Norma - uma radialista que comanda um programa sobre desaparecidos numa metrópole assombrada pela guerra civil.
Em suas locuções madrugada adentro, Norma se depara com situações imprevistas como um pai reclamando a morte de um filho pelo Exército ou um miliciano anônimo assumindo a autoria de um assassinato e indicando onde e como encontrar o corpo. Tudo isso tem que ser contornado com interrupções na transmissão e a execução de discos inteiros de bolero, a fim de que Norma não tenha o mesmo destino que o seu marido - um cientista com passado e presente de certa forma ligados à guerra - provavelmente levou: também ele há dez anos desaparecido, após se embrenhar na selva a pretexto de uma pesquisa.
O cotidiano de Norma sofre uma reviravolta após a visita de Victor, um menino órfão de pai e mãe que viaja de uma aldeia até a metrópole com a incumbência de entregar-lhe uma lista feita no povoado, com o nome de alguns desaparecidos. Victor é convidado a participar de uma série especial do programa que tem a finalidade de recuperar seus índices de audiência. Por não ter onde ficar, acaba se hospedando na casa de Norma, vazia desde o sumiço de seu marido, Rey.
Numa terceira pessoa insípida e distante, Alarcón passeia pelos enredos desses personagens, indo do presente ao passado, reconstituindo a viagem de Victor, a forma como perdeu sua mãe num afogamento, a história de amor de Norma e o passado de Rey. Os capítulos são cheios de subtextos que mais tarde serão preenchidos com uma cadeia de elos imprevistos, que como esperado vão tornar o mistério em torno do desaparecimento de Rey mais claro.
Presente e passado por vezes se veem imbricados numa mesma cena, em passagens confusas e transições frágeis, que empurram o leitor em uma temporalidade pantanosa, cuja travessia só se dá com os pés no chão quando já é possível vislumbrar pontes mais seguras, próximo ao final do livro. É quando a incursão de Alarcón pelos recônditos de sua pátria-mãe e sua tradição ancestral (que ele vai explorar de maneira assombrosa mais tarde, em seu segundo romance) torna-se um empreendimento maior e o autor - ao contrário dos seus personagens - consegue superar a ausência e desbravar a selva do romance sem perder o paradeiro.