Até o segundo ato desta peça de três, não podia dizer que gostava de algum personagem ou que havia comprado os acontecimentos que culminaram no dilema em que a protagonista se encontra. Quando o personagem mais tragável é possivelmente o desagradável agiota e o absurdo da situação (compartilhamos de informações ignoradas por alguns personagens) tornava a coisa toda quase cômica, não esperava muito do final. Na verdade, esperava, baseado em outras histórias similares de seu século ou até do posterior em diferentes midias, como o cinema, por exemplo, que acabaria mal para Nora. Esta seria punida, independente de seu marido tomar conhecimento de seu "crime". O curioso é que o final não me era estranho, já sabendo que há uma peça original que propõe uma continuação para Casa de Bonecas, um exercício de imaginação que parte do retorno de Nora a sua casa. E ainda assim, nada me preparou para a potência do terceiro ato. Quando parecia precisar contar com a leitura de textos de apoio para apreciar melhor a obra, Henrik Ibsen triunfa em seu ato final, quase como o milagre que a protagonista espera oito anos para ver concretizado. E dele não devo falar mais nada para não comprometer a surpresa e deslumbramento de próximos leitores.
Há pouco li O Marido Dela, romance de Luigi Pirandello (também famoso dramaturgo), que divide temas com a peça do autor norueguês, e não saberia apontar marido mais danoso dentro da relação conjugal; mas certamente saberia recomendar o melhor entre os dois livros. Ambos tratam basicamente da trágica hipocrisia do casamento de aparências de classe média com foco em papéis socias e de gênero. Mas Ibsen o faz com mais elegância, no uso de símbolos dramáticos (o mais famoso entitula a obra, mas também não se ignora o significado por trás de um baile à fantasia para aqueles personagens), e relevo, de maneira que a peça provoca hoje como um eco do que imagino ter explodido no colo da plateia vitoriana do século XIX, quando foi primeiramente encenada. O bater de portas final certamente ainda ressoa.