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    Niketche - Uma história de poligamia

    Paulina Chiziane

    European Schoolbooks Ltd
    2002
    336 páginas
    11h 12m
    ISBN-13: 9789722114769
    Português
    4.1
    4514 avaliações
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    Favoritos1Desejados3914Avaliaram4514

    Rami, casada há vinte anos com Tony, um alto funcionário da polícia, de quem tem vários filhos, descobre que o partilha com várias mulheres, com as quais ele constituiu outras famílias. O seu casamento, de «papel passado» e aliança no dedo, resume-se afinal a um irónico drama de que ela é apenas uma das personagens. Numa procura febril, Rami obriga-se a conhecer «as outras». O seu marido é um polígamo! Na via dolorosa que então começa, séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e as diferenças abissais de cultura entre o norte e o sul da terra que é sua, esmagam-na. E só a sabedoria infinita que o sofrimento provoca lhe vai apontando o rumo num labirinto de emoções, de revelações, de contradições e perigosas ambiguidades. Poligamia e monogamia, que significado assumem? Cultura, institucionalização, hipocrisia, comodismo, convenção ou a condição natural de se ser humano, no quadro da inteligência e dos afectos? Paulina Chiziane estende-nos o fio de Ariadne e guia-nos com o desassombro, a perícia e a verdade de quem conhece o direito e o avesso da aventura de viver a vida. Niketche, dança de amor e erotismo, é um espelho em que nos vemos e revemos, mas no qual, seguramente, só alguns de nós admitirão reflectir-se. Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance (Balada de Amor ao Vento, 1990), mas eu afirmo: sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte. Nasci em 1955 em Manjacaze. Frequentei estudos superiores que não concluí. Actualmente vivo e trabalho na Zambézia, onde encontrei inspiração para escrever este livro.

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    Alexandre Figueiredo22/09/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A arte de contar histórias e costurar almas

    A leitura de “Niketche - uma história de poligamia” não é obrigatória. É essencial. Eu gosto da literatura engajada, que gera reflexão. Esse tipo de literatura é diferente da panfletária ou de entretenimento, pois ela tem uma função nobre e muito importante. E por isso concordo com o escritor gaúcho Altair Martins, em entrevista ao Paiol Literário: a literatura é “uma forma de intervenção” e “deve mostrar aquilo que não é mostrado”, pois ela tem o objetivo de “corroer a pretensa realidade”. Este livro da Paulina Chiziane é um exemplo maiúsculo dessa árdua missão. Para entender a grandiosidade da leitura de “Niketche - uma história de poligamia” se faz necessária uma breve biografia de Paulina Chiziane, pois ela é uma figura inspiradora para o seu país e para as mulheres do mundo. A autora cresceu num subúrbio de Maputo em um seio familiar cristão, recebendo instrução formal em instituições dessa ordem religiosa e, portanto, aprendendo português, a língua do colonizador. Durante sua juventude, participou ativamente das atividades da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO, partido do qual se desliga posteriormente para se dedicar à literatura. E aí temos mais um feito fantástico: Paulina Chiziane é a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. E sabem quando isso aconteceu? Inacreditavelmente apenas em 1990!! O primeiro romance dela chama-se “Balada de amor ao vento” e não foi editado no Brasil, de acordo com a minha breve pesquisa. Apesar de publicar esparsamente contos desde 1984, o reconhecimento nacional e internacional acontece justamente com a chegada de “Niketche - uma história de poligamia”, esta extraordinária peça de ficção que veio ao mundo em 2002. E por onde começar a falar de um livro tão potente como este? A tarefa é difícil, mas tentarei. Em “Niketche” os leitores vão ser apresentados à conturbada vida de Rami. Moçambicana do Sul do país, Rami percebe-se abandonada pelo marido, Tony. E pior: percebe que a razão deste abandono está diluída em quatro mulheres. No nível mais básico, a história de Rami parece uma narrativa de realismo mágico que se perdeu em outro continente colonizado que não o americano. Mas o livro de Paulina é muito mais do que uma simples discussão sobre poligamia e traição. Ao narrar a singular história de Rami, a autora educa seus leitores sobre as questões mais prementes do feminismo sem ser doutrinadora. Com uma prosa poética deslizante diante dos olhos, descobrimos em “Niketche” o poder da possibilidade. No livro, através das pontuações precisas da narradora diante das diversas questões apresentadas aos leitores, Paulina discute cultura, colonização, machismo, traição, maternidade, paternidade, sororidade e relações de gênero e poder, além da liberdade e da emancipação feminina. Conhecer Moçambique pelas palavras de Paulina é conhecer uma África profunda e ancestral que ainda sofre com as consequências da chegada do homem branco à região. É estar diante de uma costura de almas que desnuda o sofrimento de uma sociedade. Em entrevistas e declarações, Paulina Chiziane gosta de afirmar que é uma simples contadora de histórias. O que ela não revela em sua voz suave nas suas sempre humildes intervenções, entretanto, é que esta é uma função transformadora. Uma história, quando tem o propósito de refletir sobre algo, apresenta possibilidades antes desconhecidas dos leitores devido à invisibilidade da pequenez do cotidiano. E quando isso acontece, meus caros, é lindo e inesquecível, como este livro.

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    • 2 estrelas5%
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    Paulina Chiziane profile picture

    Paulina Chiziane

    Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, Moçambique, em 1955. Estudou Linguística na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo (capital do país), mas não concluiu o curso. Atualmente vive e trabalha na província de Zambézia. Ficcionista, publicou vários contos na imprensa portuguesa e moçambicana. Ganhou notoriedade e projeção em seu país ao publicar o primeiro romance moçambicano escrito por uma mulher, com o livro "Balada de Amor ao Vento" de 1990. Criadora de enredos impecáveis, Chiziane afirma: "Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance, mas eu afirmo: sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte." Venceu o prêmio Camões de 2021.

    16 Livros
    97 Seguidores
    Gaza, Moçambique

    Paulina Chiziane