Niketche (eBook) - Uma história de poligamia

    Paulina Chiziane

    Companhia de Bolso
    2021
    345 páginas
    11h 30m
    ISBN-10: B08TGMNYVY
    Português

    Um dos romances moçambicanos mais renomados do século XX, agora em edição de bolso. Da vencedora do Prêmio Camões 2021. Rami é uma esposa fiel e subserviente. Ela faz o que manda a tradição, mas nem assim consegue ser amada por Tony, com quem é casada há vinte anos. Certo dia, Rami descobre que o marido tem várias amantes – e filhos – por todo o Moçambique, e decide conhecê-las uma a uma. "Eu, Rami, sou a primeira-dama, a rainha mãe. [...] O nosso lar é um polígono de seis pontos. É polígamo. Um hexágono amoroso", diz. A partir desse encontro surpreendente, todas terão suas vidas completamente transformadas. De origem humilde, Paulina Chiziane foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance – apesar de não se considerar romancista, mas uma contadora de histórias. Em Niketche, ela mistura bom humor, consciência social e lirismo para traçar um vigoroso painel da condição feminina e da sociedade de seu país.

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    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo22/09/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A arte de contar histórias e costurar almas

    A leitura de “Niketche - uma história de poligamia” não é obrigatória. É essencial. Eu gosto da literatura engajada, que gera reflexão. Esse tipo de literatura é diferente da panfletária ou de entretenimento, pois ela tem uma função nobre e muito importante. E por isso concordo com o escritor gaúcho Altair Martins, em entrevista ao Paiol Literário: a literatura é “uma forma de intervenção” e “deve mostrar aquilo que não é mostrado”, pois ela tem o objetivo de “corroer a pretensa realidade”. Este livro da Paulina Chiziane é um exemplo maiúsculo dessa árdua missão. Para entender a grandiosidade da leitura de “Niketche - uma história de poligamia” se faz necessária uma breve biografia de Paulina Chiziane, pois ela é uma figura inspiradora para o seu país e para as mulheres do mundo. A autora cresceu num subúrbio de Maputo em um seio familiar cristão, recebendo instrução formal em instituições dessa ordem religiosa e, portanto, aprendendo português, a língua do colonizador. Durante sua juventude, participou ativamente das atividades da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO, partido do qual se desliga posteriormente para se dedicar à literatura. E aí temos mais um feito fantástico: Paulina Chiziane é a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. E sabem quando isso aconteceu? Inacreditavelmente apenas em 1990!! O primeiro romance dela chama-se “Balada de amor ao vento” e não foi editado no Brasil, de acordo com a minha breve pesquisa. Apesar de publicar esparsamente contos desde 1984, o reconhecimento nacional e internacional acontece justamente com a chegada de “Niketche - uma história de poligamia”, esta extraordinária peça de ficção que veio ao mundo em 2002. E por onde começar a falar de um livro tão potente como este? A tarefa é difícil, mas tentarei. Em “Niketche” os leitores vão ser apresentados à conturbada vida de Rami. Moçambicana do Sul do país, Rami percebe-se abandonada pelo marido, Tony. E pior: percebe que a razão deste abandono está diluída em quatro mulheres. No nível mais básico, a história de Rami parece uma narrativa de realismo mágico que se perdeu em outro continente colonizado que não o americano. Mas o livro de Paulina é muito mais do que uma simples discussão sobre poligamia e traição. Ao narrar a singular história de Rami, a autora educa seus leitores sobre as questões mais prementes do feminismo sem ser doutrinadora. Com uma prosa poética deslizante diante dos olhos, descobrimos em “Niketche” o poder da possibilidade. No livro, através das pontuações precisas da narradora diante das diversas questões apresentadas aos leitores, Paulina discute cultura, colonização, machismo, traição, maternidade, paternidade, sororidade e relações de gênero e poder, além da liberdade e da emancipação feminina. Conhecer Moçambique pelas palavras de Paulina é conhecer uma África profunda e ancestral que ainda sofre com as consequências da chegada do homem branco à região. É estar diante de uma costura de almas que desnuda o sofrimento de uma sociedade. Em entrevistas e declarações, Paulina Chiziane gosta de afirmar que é uma simples contadora de histórias. O que ela não revela em sua voz suave nas suas sempre humildes intervenções, entretanto, é que esta é uma função transformadora. Uma história, quando tem o propósito de refletir sobre algo, apresenta possibilidades antes desconhecidas dos leitores devido à invisibilidade da pequenez do cotidiano. E quando isso acontece, meus caros, é lindo e inesquecível, como este livro.

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