Literatura é uma porta de entrada para o mundo. É nela que tomamos conhecimento da cultura de nossos irmãos de outros países, de outras eras e de outras vivências. E os contos de Isaac Bashevis Singer (1902-1991), escritor judeu nascido na Polônia mas que viveu boa parte de sua vida como cidadão norte-americano, possui muito dessa característica: o senso de descobrimento.
Fora do radar dos brasileiros, Isaac Bashevis foi um ganhador do Nobel de Literatura (em 1978) e isto se explica facilmente lendo seus contos contidos na coletânea "A Morte de Matusalém e outros contos", escrita primeiramente em iídiche, uma das línguas dos povos judeus e que o autor difundia para se tornar oficial junto ao hebraico.
O autor consegue colocar o leitor rapidamente dentro da obra, pois, em sua maioria, os contos são narrados a ele por um terceiro. O contador, assim como o leitor, é apenas um ouvinte das tramas cotidianas da vida dessas pessoas curiosas e com histórias interessantes, com a diferença de que a colocou no papel, enquanto nós apenas a apreciamos.
Bashevis trata de temas como traição, corrupção familiar, fé e questionamentos em tramas muito simples e ágeis (o conto mais longo têm pouco mais de 25 páginas, enquanto a média é de apenas 10 laudas), sempre, e aí está seu principal atrativo e fator que o destaca dos demais, carregada com muito da cultura judaica, desde seus mantras e visões de mundo, até costumes mais específicos dos judeus poloneses.
Percebe-se, lendo seus contos, um autor com vivência e com bagagem literária: referencia Tolstói, como um exemplo. E o leitor dos clássicos russos irá se familiarizar com citações sobre São Petersburgo, sobre a moeda rublo e tsares, príncipes etc. - por conta da proximidade da Polônia com a Rússia, muito mais estreita antigamente, nos tempos da URSS, suas culturas se embaralhavam.
Lendo seus contos, entendemos que estamos absorvendo, mesmo que minimamente e apenas como porta de entrada, aquela vivencia que, para muitos (eu incluso) é tão desconhecida. Sua mitologia (pois três de seus contos, na contramão dos outros 17 que compõe a coletânea, não são de Bashevis ouvindo um contador e sim de teor mitológico e fabulesco), sua tradição, seus vícios, sua dor pelo Holocausto - tudo corrobora para uma experiência única com a prosa deste autor pouco difundido entre nós, brasileiros.
Seu texto simples mas carregado de sinceridade e beleza narrativa e simbólica (fatores motrizes para a boa prosa, creio eu) são uma ótima escolha para o leitor iniciante que pretende descobrir novos autores e até mesmo para aquele que está afastado dos livros mas pretende se aventurar nos belos ramos das páginas e das letras. Leia imediatamente. Tenho certeza que irá adorar.