A queda -

    Albert Camus

    Livros do Brasil - Lisboa
    1968
    220 páginas
    7h 20m
    ISBN-1: 0
    Português

    A queda narra a história de um advogado francês que num bar de marinheiros em Amsterdam, faz seu exame de consciência a um desconhecido. Após presenciar o suicídio de uma mulher nas águas do Sena, se isola completamente do mundo.O narrador, autodenominado "juiz-penitente", faz uma grande denúncia da própria natureza humana misturada a um penoso processo de autocrítica.

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    kam !15/01/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A queda.

    Irei começar ressaltando a escrita de albert camus, que é de uma profundidade inconfundível. ele tem o dom de transformar reflexões filosóficas em narrativas envolventes, equilibrando o existencial com o humano de uma forma que só ele sabe fazer. dito isso, preciso confessar que a queda não foi o meu livro favorito do box que li dele. mas isso não diminui sua qualidade e segue sendo um livro que merece atenção e reflexão. a queda se passa em amsterdã e é narrado por clamence, um advogado parisiense que, ao longo de uma série de monólogos, compartilha sua vida, seus pensamentos e suas contradições. o formato da narrativa é singular, é como se você, leitor, fosse a pessoa sentada em um bar ouvindo suas confissões. essa abordagem dá um tom intimista e quase desconfortável, já que clamence não fala apenas sobre si, mas nos convida a questionar nossas próprias escolhas, culpas e hipocrisias. um dos momentos mais marcantes do livro é quando clamence relata um evento aparentemente banal que o faz questionar toda a sua existência. camus trabalha esse episódio de maneira sutil, sem entregá-lo como algo grandioso, mas carregando-o de um peso moral que molda toda a narrativa. é o ponto em que clamence percebe a fragilidade de sua virtude e a profundidade de sua própria hipocrisia. camus usa essa situação para explorar como nossas ações, ou inações, podem definir quem somos e como lidamos com a culpa. clamence é um personagem fascinante e complexo. ele começa como um homem que se orgulhava de suas boas ações e de sua postura moral impecável. no entanto, à medida que reflete sobre sua vida, reconhece que sua bondade era motivada pela vaidade e pelo desejo de se sentir superior, não por altruísmo genuíno. sua transformação em "juiz-penitente" é uma das partes mais intrigantes do livro. ao confessar seus próprios pecados, ele não busca redenção, mas sim inverter os papéis, acusando os outros de compartilharem as mesmas falhas e, de certa forma, os manipulando moralmente. aqui temos temas como; a hipocrisia humana e a luta para lidar com nossas contradições internas. camus, por meio de clamence, mostra como as pessoas criam máscaras para evitar encarar suas fraquezas. clamence é o espelho incômodo que camus nos oferece, refletindo nossas próprias imperfeições e medos de forma implacável. admito que, em alguns momentos, o texto parece um pouco repetitivo, com clamence reforçando ideias que já ficaram claras. isso, junto ao tom pesado e à densidade filosófica, pode tornar a leitura mais lenta. mas isso não tira o mérito do livro, que compensa com uma profundidade incrível e um convite constante à introspecção. quantas vezes ignoramos nossas falhas enquanto apontamos as dos outros? quantas vezes buscamos justificativas para a nossa própria omissão? em suma, esta é uma obra que carrega uma análise brutal e honesta sobre a fragilidade da moralidade humana. não é uma leitura fácil, mas é daquelas que permanece conosco, nos desafiando mesmo depois de virar a última página. camus, com sua escrita magistral, mais uma vez nos traz uma obra que incomoda, provoca e nos obriga a refletir sobre nós mesmos. a queda não é um livro que eu indicaria para quem está começando a ler as obras de camus. devido à sua estrutura introspectiva e ao tom filosófico denso, pode ser um tanto desafiador para quem ainda não está familiarizado com o estilo e os temas do autor.

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