O final do século XVIII alemão foi profundamente marcado pela última das três críticas de Kant: a Crítica do Juízo. Neste livro encontram-se as matrizes do movimento romântico e de todo o Idealismo Alemão. Da geração que sofreu a extraordinária influência dessa última fase da filosofia crítica faziam parte, entre outros, Schelling, Schlegel e Fichte. A filosofia de Fichte representa, ao lado da de Berkeley, a mais vigorosa afirmação do primado da sub-jevidade na história do pensamento. Mas não se trata apenas da concepção do Eu como sujeito nos seus aspectos psicológico e epistemológico. O que o pensamento de Fichte propõe é uma indiferenciação entre o sujeito e objeto que se constitui como a própria liberdade, fonte de tudo que vem a ser. Neste sentido, meta-física, lógica e ética se mesclam num único sistema cujo eixo é a identificação entre as doutrinas do absoluto, características do idealismo alemão. NESTE VOLUME Sobre o Conceito da Doutrina-da-Ciência é um texto que serve de introdução ao sistema fichteano. A Doutrina-da-Ciência (1794) é a primeira e a mais complexa versão da obra máxima que constitui a exposição da filosofia de Fichte O Princípio da Doutrina-da-Ciência: o Eu como ao mesmo tempo o pensante e o pensado é a primeira determinação da consciência, mostra Fichte nesta obra. O Programa da Doutrina-da-Ciência é o anúncio de uma nova exposição do sistema de Fichte. A Doutrina-da-Ciência e o Saber Absoluto é a primeira parte de uma nova versão da Doutrina-da-Ciência. Introdução à Teoria do Estado são conferencias sobre Teoria Política.
Fichte (Os Pensadores) - A Doutrina da Ciência de 1974 e outros escritos
Johann Gottlieb Fichte
Fichte, um filósofo da liberdade
Nos últimos meses, estive em companhia deste singular pensador, um dos mais brilhantes do período conhecido como "idealismo alemão", ali pelo final do século dezoito e início do dezenove. Porém o nome "idealismo" não dá conta de sua riqueza de ideias, às vezes atrapalhada pela sua própria opção em não dar freios ao seu impressionante pensamento, o que leva a passagens de entendimento bastante obscuro. Ler este autor é aplicar a si mesmo uma injeção de otimismo: garante este pensador que a verdade é algo acessível a qualquer ser racional, sendo então uma filosofia profundamente anticética (não confundir, é claro, com "antisséptica"). E não somente isso, ela pode ser construída por qualquer um, do zero. Promissor! Pelas suas linhas, ganhamos autoconfiança e autonomia. Liberdade e ser se entrecruzam em complicados raciocínios, que tentam justificar e esclarecer isso. Não há o real nas coisas: ele está em nós mesmos, idealmente, numa curiosa fusão entre sujeito e objeto. Somos, eternamente, este ponto de encontro privilegiado. Mais kantiano que o próprio Kant, propõe ele que nos livremos da "coisa-em-si", a azeitona na empada de qualquer filósofo. Afinal, o que fazer com uma coisa que é "em si"? Ela nunca será "para nós" e está perdida num limbo filosófico. A coisa-em-si, então, é implodida por dentro, e entramos no maravilhoso mundo da consciência, que é a justificação de si mesma e o início de tudo. Enquanto Descartes saca do banco "Deus" o índice de realidade, Fichte aqui coloca todas as suas fichas na egoidade, um eu infinito para o qual as coisas estão em relação de submissão, e não o oposto. As coisas assim são porque nossa consciência assim é; e pior, só poderia assim ser. Se a filosofia de Fichte fosse a "Matrix", metáfora impressionante das Irmãs Wachowski (em filme de mesmo nome), não existiria nada por trás dela: ao se retirarem os fios, Neo e companhia estariam na companhia de si mesmos. Somos, então, a nossa própria matriz. O filósofo, porém, pode se elevar acima disso, e entendendo os secretos mecanismos da consciência, libertar-se dela própria. Assim, filosofia e liberdade se engendram, orientando a vida. Coletânea de textos da série "Os Pensadores", temos aqui um pequeno e selecionado extrato da carreira deste autor. Em todos eles, a temática se repete, com estratégias diferentes de exposição. Chama a atenção o caráter "oito ou oitenta" do texto: ou é muito claro, ou é muito obscuro. Há um esforço legítimo em tentar ser claro, o que gera alguns dos textos mais agradáveis e ricos da filosofia. Eles são altamente recomendáveis, mesmo para leigos. Os demais, no entanto, são por conta e risco, e inserem o leitor numa perigosa "montanha-russa intelectual", com pontos muito esparsos de claridade. Recomenda-se fortemente a leitura de "Comunicado claro como o sol": de fato, o texto é extremamente claro e acessível, podendo ser lido de maneira tranquila, e propondo pequenos exercícios de reflexão. Alerta-se para o perigo da "Grundlage", que aqui é traduzida como "A Doutrina da Ciência de 1794". Texto considerado base do autor, talvez mais por uma tradição de comentadores (já que o próprio autor dá mostras de ter abandonado, depois, este estilo de exposição), é provavelmente um dos mais difíceis do gênero. Me pergunto, com toda a humildade que isso possa implicar, se realmente é um texto que vale a pena ser enfrentado. Apesar de tão importante para o autor, e como diz a edição, "para todo o idealismo alemão" (seja lá o que isso signifique; sempre desconfie dos "ismos"), não há garantia de pote de ouro, no final do arco-íris. Fico, então, com os textos mais agradáveis, e que respeitam o leitor. Vale, então, a pena conhecê-lo, mas enfrentar os seus intricados labirintos pode ser uma tarefa para poucos iluminados. A edição recomenda aqui um texto auxiliar do próprio tradutor, o poeta Rubens Torres Filho, para um melhor esclarecimento. Eu li este texto e não achei assim tão útil. Porém ele puxa um bom fio condutor, a partir da ideia de "imaginação" do autor. Vale a pena por isso. A edição que eu tenho, com a capa "arco-íris", é talvez uma das piores da série "Os Pensadores". Edição mitológica que já circula na minha família há anos (tendo pertencido ao meu pai), é um milagre que ela esteja ainda inteira. A do Nietzsche já foi pro espaço há anos. Talvez isto mostre a diferença de qualidade entre ambos. Recomendo, então, uma edição em capa dura, facilmente encontrável em sebos da vida. Esta aqui tem a capa mole, horrorosa. Boa parte do material são respostas aos críticos, o que gera momentos divertidos e ótimos debates. Fichte faz parte do time dos filósofos pretensiosos: se Sócrates e sua fundante "só sei que nada sei" é pedra basilar da atitude filosófica, aqui ele sabe tudo, só ele está certo e sua doutrina é científica. Até mesmo propõe deixar o nome "filosofia" aos leigos e diletantes. Aqui, é "doutrina-da-ciência". No final, há uma introdução à sua teoria do Direito, o que é interessante por ver suas concepções altamente abstratas sendo aplicadas a algo minimamente real. Porém só ficamos na introdução mesmo, em que só se apontam algumas dessas possíveis aplicações.
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