A ficção é um campo vasto que compreende inúmeras possibilidades. Quando se pretende escrever algo, é preciso ter em mente que tipo de história se quer contar, algo básico que todos os ficcionistas - até os pretensos - sabem. Mas além disso, interessa também saber como contar. Se uma dessas premissas não está bem resolvida, possivelmente o resultado não será satisfatório. Creio que O que ela sussurra", da sempre interessante Noemi Jaffe, é um exemplo clássico da falta de equilíbrio entre esses dois alicerces de um excelente livro.
Lançado em 2020, O que ela sussurra", segundo romance - classifico eu assim, pois ela é notadamente conhecida por produzir livros de difícil enquadramento em gêneros convencionais - da paulistana Noemi Jaffe, é uma ficção com pé profundo na realidade. A partir da história verídica da relação de Nadejda Mandelstam com o poeta russo Óssip Mandelstam, Noemi toma para si, através da fabulação, a sempre desafiadora tarefa de emular uma voz. Mas não qualquer voz: a voz daquela que guardou através de sussurros durante 25 anos uma produção artística calada pelo terror do autoritarismo stalinista. E, percebam, a ideia do livro é louvável: dar voz a quem guardava a voz de outro. A execução, no entanto, tem algumas falhas - no meu singelo ponto de vista, claro.
Para escrever O que ela sussurra", Noemi baseou-se, entre muitas outras coisas, nos dois livros de memórias escritos por Nadejda: Esperança contra a esperança e Esperança abandonada. Além disso, pululam aqui e ali versos do poeta russo ao longo deste curto romance, como se fossem costuras entre uma e outra rememoração feita pela nossa narradora. Noemi, em vídeos promocionais da editora, declara que, ao ler esses dois livros de Nadejda, vislumbrou a possibilidade de refletir sobre o apagamento de uma voz e realizar, a partir dessa lacuna, literatura, ou seja, ficção. Portanto, ao narrar em primeira pessoa com uma prosa deliciosamente bem escrita, Noemi ficcionaliza os pensamentos de Nadejda a respeito de sua posição diante da trajetória do marido, numa interessante mistura entre o real e o ficcional, intercalando, através de uma linguagem robusta, o poético e o prosaico.
O que me fez não gostar tanto do livro, então? Simples: o ritmo. Em meio a trechos poeticamente potentes, entre digressões agradáveis e passagens cômicas, Noemi se estende mais do que o necessário para refletir sobre a voz perdida de Nadejda. É claro que os leitores sabem tanto quanto eu que a leitura deste gênero é uma espécie de visualização de uma montanha, em que se tem picos e bases, pois a leitura de um romance nunca é linear. Mas sinto que aqui ela se arrasta em determinados momentos - ou capítulos, se assim preferirem. Outra decisão tomada por Noemi que também me parece deslocada ou no mínimo confusa é a de tornar a poeta Anna Akhmátova, personagem recorrente dentro do romance, na voz que fecha o livro. Não parece contraditório que, ao dar espaço num romance à voz roubada de Nadejda Mandelstam ela tenha, de repente e sem aviso prévio, a voz surrupiada por outra personagem no capítulo derradeiro? Confesso que isso me desagradou um pouco.
Há aqui a busca por uma técnica muito utilizada na literatura contemporânea, vide romances como Em liberdade, de Silviano Santiago, no campo nacional, ou A festa do Bode, de Vargas Llosa, no campo estrangeiro. Uma técnica que, registre-se, é facilmente identificável e dificilmente executável. A tentativa de se apropriar de uma identidade e ficcionalizá-la é sempre estimulante para os leitores, visto que é uma das inúmeras possibilidades de criação em cima da realidade. Afinal, quem de nós já não imaginou como fulano ou sicrano pensava?
Em um livro que aborda a poesia, a submissão, o terror, o comprometimento e a libertação da arte, além da busca por uma identidade perdida, Noemi expõe, através do imaginado, uma mulher que sobreviveu às circunstâncias de seu tempo. Talvez resida aí o ponto mais forte deste curto romance, que é bem resumido através do nome de sua narradora, Nadejda, que em russo significa esperança. Esperança essa que nunca devemos deixar de perseguir, sejamos nós escritores ou leitores.