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    O que ela sussurra -

    Noemi Jaffe

    Companhia das Letras
    2020
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9788535933246
    Português Brasileiro
    4
    250 avaliações
    Leram324Lendo12Querem464Relendo1Abandonos12Resenhas38
    Favoritos11Desejados464Avaliaram250

    O novo romance de uma das autoras mais originais da literatura brasileira retrata a vida de Nadezhda, a jovem russa que guardou na memória os poemas de seu marido morto pela censura soviética para evitar que fossem apagados para sempre da história. Neste romance envolvente e poético, Noemi Jaffe conta, com suas próprias palavras e invenções, a vida de Nadezhda Mandelstam. Vivendo sob a opressão stalinista, Nadezhda se casa com o poeta Óssip, que falecerá em um gulag na Sibéria como inimigo do regime. Contudo, para que os poemas que levaram o marido à desgraça não desapareçam, Nadezhda os memoriza e os sussurra sempre. Serão essas versões que chegarão à contemporaneidade. Baseando-se nessa história real, Noemi Jaffe constrói um romance único sobre o poder do amor, as agruras da repressão e, sobretudo, sobre o desejo feminino e seu constante apagamento. “Quero que Sonia, Vassilisa e Lizotchka aprendam a passar as horas murmurando coisas de que elas gostem, que treinem a memória para se expressar em voz baixa, como se pelo sussurro todas as mulheres da Rússia se comunicassem numa sintonia desconhecida, nós então formaríamos uma rede clandestina de sussurros, que não salvariam nada, a não ser um pouco a nós mesmas, mas que deteriam o tempo e se enovelariam, fazendo com que ele passasse menos ou mais devagar pelos lugares onde nós falamos.” Noemi Jaffe é uma arqueóloga de palavras. ― Época

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    Alexandre Figueiredo24/05/2022Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Sobre esperanças

    A ficção é um campo vasto que compreende inúmeras possibilidades. Quando se pretende escrever algo, é preciso ter em mente que tipo de história se quer contar, algo básico que todos os ficcionistas - até os pretensos - sabem. Mas além disso, interessa também saber como contar. Se uma dessas premissas não está bem resolvida, possivelmente o resultado não será satisfatório. Creio que “O que ela sussurra", da sempre interessante Noemi Jaffe, é um exemplo clássico da falta de equilíbrio entre esses dois alicerces de um excelente livro. Lançado em 2020, “O que ela sussurra", segundo romance - classifico eu assim, pois ela é notadamente conhecida por produzir livros de difícil enquadramento em gêneros convencionais - da paulistana Noemi Jaffe, é uma ficção com pé profundo na realidade. A partir da história verídica da relação de Nadejda Mandelstam com o poeta russo Óssip Mandelstam, Noemi toma para si, através da fabulação, a sempre desafiadora tarefa de emular uma voz. Mas não qualquer voz: a voz daquela que guardou através de sussurros durante 25 anos uma produção artística calada pelo terror do autoritarismo stalinista. E, percebam, a ideia do livro é louvável: dar voz a quem guardava a voz de outro. A execução, no entanto, tem algumas falhas - no meu singelo ponto de vista, claro. Para escrever “O que ela sussurra", Noemi baseou-se, entre muitas outras coisas, nos dois livros de memórias escritos por Nadejda: “Esperança contra a esperança” e “Esperança abandonada”. Além disso, pululam aqui e ali versos do poeta russo ao longo deste curto romance, como se fossem costuras entre uma e outra rememoração feita pela nossa narradora. Noemi, em vídeos promocionais da editora, declara que, ao ler esses dois livros de Nadejda, vislumbrou a possibilidade de refletir sobre o apagamento de uma voz e realizar, a partir dessa lacuna, literatura, ou seja, ficção. Portanto, ao narrar em primeira pessoa com uma prosa deliciosamente bem escrita, Noemi ficcionaliza os pensamentos de Nadejda a respeito de sua posição diante da trajetória do marido, numa interessante mistura entre o real e o ficcional, intercalando, através de uma linguagem robusta, o poético e o prosaico. O que me fez não gostar tanto do livro, então? Simples: o ritmo. Em meio a trechos poeticamente potentes, entre digressões agradáveis e passagens cômicas, Noemi se estende mais do que o necessário para refletir sobre a voz perdida de Nadejda. É claro que os leitores sabem tanto quanto eu que a leitura deste gênero é uma espécie de visualização de uma montanha, em que se tem picos e bases, pois a leitura de um romance nunca é linear. Mas sinto que aqui ela se arrasta em determinados momentos - ou capítulos, se assim preferirem. Outra decisão tomada por Noemi que também me parece deslocada ou no mínimo confusa é a de tornar a poeta Anna Akhmátova, personagem recorrente dentro do romance, na voz que fecha o livro. Não parece contraditório que, ao dar espaço num romance à voz roubada de Nadejda Mandelstam ela tenha, de repente e sem aviso prévio, a voz “surrupiada” por outra personagem no capítulo derradeiro? Confesso que isso me desagradou um pouco. Há aqui a busca por uma técnica muito utilizada na literatura contemporânea, vide romances como “Em liberdade”, de Silviano Santiago, no campo nacional, ou “A festa do Bode”, de Vargas Llosa, no campo estrangeiro. Uma técnica que, registre-se, é facilmente identificável e dificilmente executável. A tentativa de se apropriar de uma identidade e ficcionalizá-la é sempre estimulante para os leitores, visto que é uma das inúmeras possibilidades de criação em cima da realidade. Afinal, quem de nós já não imaginou como fulano ou sicrano pensava? Em um livro que aborda a poesia, a submissão, o terror, o comprometimento e a libertação da arte, além da busca por uma identidade perdida, Noemi expõe, através do imaginado, uma mulher que sobreviveu às circunstâncias de seu tempo. Talvez resida aí o ponto mais forte deste curto romance, que é bem resumido através do nome de sua narradora, Nadejda, que em russo significa “esperança”. Esperança essa que nunca devemos deixar de perseguir, sejamos nós escritores ou leitores.

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    • 5 estrelas21%
    • 4 estrelas46%
    • 3 estrelas27%
    • 2 estrelas5%
    • 1 estrelas1%
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    Noemi Jaffe

    Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. É escritora, doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e atua como crítica literária dos jornais Folha de S. Paulo e Valor Econômico, onde também mantém a coluna mensal "Leituras Amadoras". Em 2010, organizou o volume Melhores poemas, de Arnaldo Antunes. De sua autoria publicou, entre outros, os livros Todas as coisas pequenas (Hedra, 2005), Quando nada está acontecendo (Martins, 2011) e A verdadeira história do alfabeto (Companhia das Letras, 2012).

    17 Livros
    42 Seguidores
    São Paulo, Brasil

    Noemi Jaffe