Publicado pela primeira vez em 1986 e agora em nova edição, O anticrítico comprova o rigor e a originalidade de um dos fundadores da poesia concreta no Brasil. Como classificar este livro de Augusto de Campos? Poesia-crítica? Crítica-poesia? Crítica da crítica? Qualquer que seja a definição, Dante, Donne, Gregório de Matos, E. Fitzgerald, Emily Dickinson, Lewis Carroll, Gertrude Stein, Duchamp, John Cage, entre outros, são aqui reconversados numa linguagem nova, antiacadêmica, e revistos de uma perspectiva não convencional. Os poetas são revividos em versões em que se impõem os requintes e os rigores da tradução-arte. Tradução seletiva, personalizada, cujos valores estéticos e anímicos dos textos originais são recriados em português, numa operação ao mesmo tempo crítica e poética.
O anticrítico -
Augusto de Campos
Edições (2)
Ver maisUma não-crítica crítica. A crítica-da-crítica, mas que não se quer crítica e assim o é, talvez mais até do que as outras. Não para que se negue a crítica acadêmica, mas para que ela não estrangule e nem sufoque ninguém. Quanta liberdade em misturar tudo: Cage, Gertrude Stein, Gregório de Matos, John Donne, Lewis Carroll, Duchamp, Dante Alighieri, Mallarmé, Emily Dickinson Que caldo, que salada! Ou, como diria a sua versão para a canção da Falsa Tartaruga de Alice no País das Maravilhas: Que bela Sopa, de osso ou aveia, A ferver na panela cheia! Quem não diz: - Ave! Quem não diz: - Eia! Quem não diz: - Opa! que bela Sopa! So__pa, só__ó So____opa! Que bela Sopa! Quem não se baba não papa. A linguagem em pó da poesia de todos que são e não são Augustos. Que imbecilidade da crítica querer concluir qualquer coisa. Se não sabemos nem as perguntas, para que respostas? Duchamp disse: não há solução pois nem há problema. Escultura, construção, falsa cascata de textos poéticos, Augusto, a falsa-tartaruga, como os disfarces alter-egos de Duchamp, parece dramatizar a si mesmo, dramaturgo da poesia alheia, que rouba e subverte, reescreve, surrupia, omite, sequestra, transforma, muda tudo. Ator-poeta de múltiplas figuras, tipos e vozes, não nega os truques e mostra-os à plateia, como Brecht. Escondendo-se nos outros, Augusto escreve um livro de outros, como um Pierre Menard, como um DJ que cria na não autoria. Pode-se implicar com os irmãos Campos e suas transcriações, realmente elas não são ortodoxas. A tradução deles é outra coisa. Por isso é preciso outro nome. Transduções. Transcriações. Intraduções. São trans-invenções. Quem não gosta geralmente se queixa: Ah mas esta palavra da esquerda não tem essa correspondência exata na palavra da tradução da direita. Quanta confiança nas palavras. E quanta fé no significado. O que me encanta nos irmãos Campos é justamente essa anarquia paralógica, supralógica. A preocupação é estética. Pois, como Pound, sabiam que a poesia não se domestica à sintaxe. É jogo plástico, ritmico, sonoro, verbal, vocal, visual. Só se preocupar com um destes aspectos é muito pouco! Se não há a dança do intelecto pelas palavras, de que serve cantar uma música morta? Nas mãos dos irmãos Campos toca uma dança originalíssima e transgressora que a tudo abraça e nega ao mesmo tempo. Apropria-se sem ser. Ou a poesia deve permanecer coagulada numa dicção mortiça, ou ser re-ouvida re-re-escrita e servida a novos ouvidos e olhos livres, como queria Oswald. Canibalmente. A poesia nos fatos, nos fatos estéticos. Deglutida, mil vezes mastigada e cuspida de volta. Carne de outra perna. A poesia nas coisas, nos cipós e nas metrificações. Alegria dos que não sabem e descobrem. A invenção. A surpresa. Outra perspectiva. Para nos abalar e nos rebelar. Musicaos. Não é preciso concordar com Augusto para amá-lo. VIVA Augusto de Campos VAIA
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