Não se engane pelo pequeno número de páginas; não é sinônimo de leitura rápida. A obra é arrastada, - e jamais tomem essa informação como ponto negativo. Seu estado letárgico é fundamental para a sua apreciação; quanto mais tempo passamos nas páginas, degustando as palavras de Roberto Bolano, mais adentramos aos emaranhamos da obra, a seus sutis detalhes que uma rápida passada de olho poderia ignorar.
Partindo do pressuposto que o fluxo de consciência se mistura com uma viagem em suas próprias memórias, tornando passado, presente e futuro uma coisa só, acompanhamos a auto-intitulada “mãe da poesia mexicana”, Auxilio, uma uruguaia que emigra para as terras mexicanas e lá tem contato com o epicentro da poesia latino-americana, misturando personagens reais com fictícios.
Em um estilo que em diversas vezes me lembrou autores como Thomas Pynchon ou Clarice Lispector, bato o martelo que qualquer informação sobre a “história” desse livro é contestável; estamos sempre no limiar entre o tangível e o ideal, o delírio e a realidade, o sonho e a miserabilidade humana, - ainda mais quando a obra centra-se em memórias, que se embolam por todo o livro. A famosa cena em que a protagonista passa dias no banheiro de sua faculdade quando tropas invadem as instalações estudantis, (que é baseada em fatos reais), é diversas vezes revisitada, regressada e adiantada, como se ela permeasse todos os acontecimentos da obra (e penso como dizer “regressada” e “adiantada” é falho; é como se todos os acontecimentos do livro ocorressem naquele banheiro, ou pelo menos interpretei desta forma). Não conseguimos dizer a cronologia do que é narrado, - até onde o retrato de uma recordação não vale por si própria? É quase como se estivéssemos em uma quarta dimensão, onde não há distinção do tempo.
Foi meu primeiro contato com o autor, e quero repetir a dose. “Amuleto” tem tudo o que mais admiro na literatura; um texto que te xinga, te escarra, te humilha, e o leitor continua a insistir a tentar entendê-lo, mesmo nao tendo sido a intenção do autor fazer quem lê entender.
“E embora o canto que escutei falasse da guerra, das façanhas heroicas de uma geração inteira de jovens latino-americanos sacrificados, eu soube que acima de tudo falava do destemor e dos espelhos, do desejo e do prazer. E esse canto é nosso amuleto.”