Para não esquecer - Edição comemorativa

    Clarice Lispector

    Rocco
    2020
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9788532531759
    Português Brasileiro

    Para a legião de apreciadores de textos curtos e boas frases o livro Para não esquecer, de Clarice Lispector, é leitura obrigatória. A obra — publicada pela primeira vez em 1964 — reúne 108 crônicas que bem poderiam pertencer a um diário. Ora a autora conta uma pequena história, ora ela simplesmente parece pensar alto. “Os homens têm lábios vermelhos e se reproduzem. As mulheres se deformam amamentando”, diz, em "Aldeia italiana". No final desse curtíssimo artigo, Clarice resume: “A vida é triste e ampla.” A cidade de Brasília merece um dos maiores textos desse livro. A primeira parte foi escrita em 1962 e a segunda, 12 anos mais tarde, quando a escritora retornou à capital brasileira. Em ambas ela fala sobre suas impressões com algum carinho e bastante ironia. “Os ratos adoram a cidade. Qual será a comida deles? Ah, já sei: eles comem carne humana.” Não há ligação entre as crônicas; são anotações para não ser esquecidas. Em "Aproximação gradativa" ela diz apenas: “Se eu tivesse que dar um título a minha vida seria ‘A procura da própria coisa.’” O tom seco e perturbador não reaparece na crônica "A posteridade nos julgará" em que ela se dedica a explicar — ou entender — o que é uma gripe. “É a experiência da catástrofe inútil. É um lamento covarde que só o gripado compreende.” Pensatas à parte, Clarice Lispector também faz desabafos em seu livro/diário: “Dei inúmeras entrevistas. Modificaram o que eu disse. Não dou mais entrevistas. E se o negócio é mesmo na base da invasão de minha intimidade, então que seja paga. Disseram-me que nos Estados Unidos é assim. E tem mais: eu sozinha é um preço, mas se entra o meu precioso cachorro, cobro mais. Se me distorcerem, cobro multa. Desculpem, não quero humilhar ninguém, mas não quero ser humilhada.”

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    Renan Duarte10/02/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    “Cada vez mais acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.”

    Uma coleção de boas crônicas da Clarice, algumas delas foram de muita inspiração! Destaco as seguintes: Mal-estar de um anjo, Uma Ira, Um amor conquistado, O Chá, Desenhando um menino, A Vingança e a reconciliação penosa e Mineirinho Em “Mal-estar de um anjo”, com humor acidez e força, vemos que a bondade ou gentileza de alguem pode ser usada/abusada pelos outros para, e ser colocado nesse lugar de anjo bondoso por vezes é uma armadilha ardilosa que pede uma subversão. Em “Uma amor conquistado” ela reflete sobre ter visto um homem passeando com um quati numa coleira, tal qual um cachorro domesticado e como isso a faz pensar sobre a natureza das coisas e a consciência que elas têm desta e de si mesmas. “O Chᔠe “Mineirinho” são um tapa com luva de pelica nos que criticam Clarice por não ser uma escritora engajada socialmente, ela sempre traz o tema dessas mulheres mas pobres, por vezes domésticas (e outros personagens marginalizados, como Mineirinho), em o contraste com suas madames (ela inclusive) e seus pensamentos e vidas. “Desenhando um menino” é algo poético e existencial, quase psicanalítico, sobre a criança a mãe, o perceber a si ao outro ao mundo (a mãe) Na crônica “A Vingança e a reconciliação penosa” encontrei muito paralelo com a Paixão segundo GH, um rato no lugar da barata, mas a mesma atmosfera de uma tragédia epifânica prestes a ser desabrochada. “Mineirinho” me marcou tanto quando li a primeira vez e até hoje a força desse texto e seu conteúdo mexem comigo, deixo aqui o trecho final: “Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato. O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.”

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