Uma coleção de boas crônicas da Clarice, algumas delas foram de muita inspiração!
Destaco as seguintes: Mal-estar de um anjo, Uma Ira, Um amor conquistado, O Chá, Desenhando um menino, A Vingança e a reconciliação penosa e Mineirinho
Em Mal-estar de um anjo, com humor acidez e força, vemos que a bondade ou gentileza de alguem pode ser usada/abusada pelos outros para, e ser colocado nesse lugar de anjo bondoso por vezes é uma armadilha ardilosa que pede uma subversão.
Em Uma amor conquistado ela reflete sobre ter visto um homem passeando com um quati numa coleira, tal qual um cachorro domesticado e como isso a faz pensar sobre a natureza das coisas e a consciência que elas têm desta e de si mesmas.
O Chá e Mineirinho são um tapa com luva de pelica nos que criticam Clarice por não ser uma escritora engajada socialmente, ela sempre traz o tema dessas mulheres mas pobres, por vezes domésticas (e outros personagens marginalizados, como Mineirinho), em o contraste com suas madames (ela inclusive) e seus pensamentos e vidas.
Desenhando um menino é algo poético e existencial, quase psicanalítico, sobre a criança a mãe, o perceber a si ao outro ao mundo (a mãe)
Na crônica A Vingança e a reconciliação penosa encontrei muito paralelo com a Paixão segundo GH, um rato no lugar da barata, mas a mesma atmosfera de uma tragédia epifânica prestes a ser desabrochada.
Mineirinho me marcou tanto quando li a primeira vez e até hoje a força desse texto e seu conteúdo mexem comigo, deixo aqui o trecho final:
Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.