Um livro escrito por uma mulher japonesa no ano 1000, à mão em papel, objeto raro! Isso por si só já é uma façanha, considerando a posição inferior da mulher na hierarquia social japonesa. Murakami, que aprendeu chinês escondido para avançar como escritora, coloca como protagonista um homem: Genji, o príncipe brilhante, que foi rebaixado a plebeu e obrigado a se exilar em meditação budista por descumprir as regras da Corte.
Os relacionamentos dele com várias mulheres são repetitivos e confusos e, em alguns casos seriam considerados, nos dias de hoje, até pedofilia. Mas a autora permite que as personagens expressem seus sentimentos e desejos mais internos. E como choram! Os poemas são outra forma de demonstrar as emoções reprimidas: uma espécie de correio elegante como a única maneira dos casais se falavam. E foi a quantidade de poemas que deu legitimidade ao seu romance, segundo Martin Puchner*.
O ponto alto do romance é a exaltação à Literatura, quando Genji ensina a arte dos ideogramas à menina Murasaki dando a ela (uma mulher) a possiblidade de ascensão. O nome da menina não é por acaso o mesmo da escritora, que aproveita a escrita para registrar suas reflexões sobre a cultura japonesa.
*A História da escrita.