Não sei o que são esses textos do ponto de vista dos gêneros. Contos? Minicontos? Poemas em prosa? Autobiografia ficcional em mosaico onírico? Pouco importa: ninguém sabia direito o que eram os poemas em prosa de Baudelaire quando eles apareceram tampouco. -- Antonio Marcos Pereira O que importa na obra de Evanilton Gonçalves não é a forma, mas o conteúdo e o lugar do qual fala o autor. Seus pensamentos supérfluos mostram o outro lado do cartão postal, explicitam um pouco do que há de trágico em Salvador, cidade-sede das andanças que deram voz a estes escritos. Por meio de diferentes vozes, com sátira, ironia e nonsense, os textos percorrem o cotidiano da cidade e surgem enquanto o autor divaga pela urbe e investiga o graffiti em suas pesquisas acadêmicas. Paloma Franca Amorim faz uma leitura acurada quando diz que “Evanilton fala das coisas pelo lado de fora para falar das pessoas pelo lado de dentro”. Para ela, “Evanilton produz no leitor a sensação de testemunho de uma paisagem social e histórica soteropolitana que se universaliza na medida em que suas contradições são evocadas como reflexos políticos e poéticos da ação humana, do dinheiro ou da falta dele e, sobretudo, do poder em suas mínimas expressões materiais e metafísicas.” Antonio Marcos Pereira completa dizendo que “a vida desses textos parece estar no núcleo de estranheza do mundo que eles apalpam, nos oferecendo frestas de acesso para uma desfamiliarização do cotidiano e para uma situação na qual a ideia de pensamento supérfluo é tão paradoxal e absurda quanto algumas das cenas narradas”.
Pensamentos supérfluos - Coisas que desaprendi com o mundo
Evanilton Gonçalves
Edições (2)
Ver mais"O spleen de Salvador"
Para aqueles que tem olhos de ver e ouvidos para escutar com atenção, as ruas de uma cidade como Salvador, antigas, estreitas, apinhadas e esquizofrênicas na sua mistura de passado colonial com modernidade tardia, oferecem muito material para filosofias profundas e 'pensamentos supérfluos'. É entrar no ônibus, esteja ele vazio o suficiente para acomodar o corpo cansado ou cheio no modelo 'lata de sardinhas', e o balanço da viagem, se em alguns provoca torpor, em outros embala ideias, trechos de diálogos e digressões de todas as naturezas... Nesse clima de jornada interminável nascem os textos de <b> <i>Pensamentos Supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo</b></i>, livro de estreia de Evanilton Gonçalves. Uma mistura de contos, micro-contos, autoficção e um apanhado de ideias de um jovem professor errante pelos recantos da velha cidade da Bahia. Escritos em prosa e poesia concreta, mas ainda assim macia, proporcionando uma leitura que desliza em palavras e evoca imagens universais. Por mais peculiar que seja Salvador e seus habitantes, existem semelhanças com outros centros urbanos, principalmente aqueles derivados da colonização e da diáspora. Não só o ônibus cheio nos horários de pico, mas as caminhadas apressadas ou contemplativas pelas centenárias esquinas e praças da cidade oferecem ao leitor um vislumbre da dinâmica soteropolitana, mas sob o olhar intimista, profundo e filosófico do autor. Salvador e todas as suas idiossincrasias invade a alma de Evanilton e ele transforma a experiência e devolve-a com suas lentes sensíveis e sutis, porém dotadas de senso crítico e uma certa ironia. É um olhar contemporâneo sobre a cidade mas, principalmente, sobre o soteropolitano periférico, aquele que vence distâncias gastando sola de sapato, chacoalhando nos coletivos, pedindo carona solidária e distribuindo versos a quem nem sempre retribui as poucas gentilezas recebidas na aridez cotidiana. O livro evoca a mesma atmosfera meio revolucionária em que gravitam os poetas populares da cidade, que pedem um minuto de atenção ao viajante entediado ou imerso nos próprios pensamentos, sacudindo-o, por alguns minutos, da languidez dos dias abafados e mormacentos, quando os ônibus transformam-se em pequenas estufas a cozinhar gentes e juízos. E, nas ruas apinhadas, o transeunte sonha com a brisa suave vinda do mar e barrada pelos paredões de vidro e concreto dos condomínios de luxo que roubam a paisagem e a ventilação. Essa Salvador cada dia mais abafada por fora, de certa forma, reproduz o sufocamento interno de seus habitantes mais sensíveis. Ora reflexo da revolta com os políticos e seus outdoors carregados de photoshop, ora com a solidão que hoje em dia nem a 'cidade efêmera do Carnaval', a despeito de toda publicidade, consegue mais aplacar. No prefácio da obra, o professor Antonio Marcos Pereira, da Universidade Federal da Bahia, a mesma onde Evanilton Gonçalves graduou-se pelo Instituto de Letras, evoca os poemas em prosa de <i>O spleen de Paris</i>, de Charles Baudelaire, e a estranheza com o mundo presente nos versos do poeta flâneur francês do século XIX. Pereira atribui a Evanilton um 'spleen de Salvador' e a definição não podia ser melhor. Os textos livres e os pensamentos do autor baiano, que de supérfluos não têm nada, registram em uma crônica cotidiana que mistura prosa e poesia, o mesmo lirismo sem regras da alma sensível que vagueia no limite do tédio existencial, mas revestida com o véu lírico que encobre a realidade crua e que só aqueles com todos os sentidos aguçados conseguem captar...
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