Flores acompanha um jornalista que vive com a esposa e a filha numa rotina meio desgastada. Ele cria um laço curioso com o senhor Ulme, um vizinho idoso que sofre demais com as tragédias do mundo e esqueceu as melhores partes da própria história. O narrador decide ajudá-lo a reconstruir essas memórias perdidas, mas descobre que elas são cheias de contradições e sombras. Apesar da escrita fluida e agradável, Flores é um livro cheio de camadas. Afonso Cruz constrói uma narrativa fragmentada, com capítulos curtos e imagens muito ricas em simbolismo. As memórias são vistas como algo frágil, maleável, que pode ser moldado como um golem e há uma crítica sutil ao risco de embelezarmos demais o passado ou impormos versões falsas para dar sentido à vida. Além disso, o livro deixa no ar questões difíceis sobre culpa, sobre a anestesia diante das tragédias alheias e sobre o que realmente significa "ajudar" alguém a se lembrar de quem foi. Gostei muito do tom do livro: a escrita é super agradável, com uma leveza surpreendente mesmo cheia de simbolismos e metáforas. Afonso Cruz consegue falar de memória, identidade e culpa sem nunca pesar a mão, o que faz a leitura fluir bem. O senhor Ulme é um capítulo à parte: uma comédia como idoso, cheio de manias, mas também uma figura muito interessante e contraditória quando vai sendo reconstruído pelas memórias dos outros. Achei fascinante como cada pessoa fala dele de um jeito diferente, deixando a gente meio sem saber quem ele realmente foi. No fim das contas, foi uma leitura gostosa e muito interessante. Tenho curtido bastante os livros do autor. Simbora pro próximo! #livrosescrap #amoler #flores #afonsocruz #literaturaportuguesa #reading


