Após quase 35 anos do lançamento de O conto da aia, distopia que arrebatou o mundo todo e nos transportou para o centro de um governo teocrático em que as mulheres perderam seus direitos e identidade, Margaret Atwood nos brinda com Os testamentos, uma obra igualmente genial, que responderá perguntas que não saíram de nossas cabeças desde que a porta da van se fechou, levando Offred para um destino imprevisível. Dessa vez, teremos três narradoras, que através de seus testamentos, apresentarão mais detalhes sobre o mundo além dos muros de Gilead, e darão luz a espaços obscuros que revelam mais do que podemos imaginar sobre um regime ditatorial e sobre as pessoas que sustentam sua estrutura. Os testamentos se passa quinze anos após os acontecimentos aterrorizantes de O conto da aia. Mesmo diante de inúmeras tentativas de desestruturação, o regime da República de Gilead permanece de pé, mas há sinais de que suas pilastras começam a apresentar rachaduras. É nesse momento que a vida de três mulheres se entrelaça. Agnes, filha de um comandante, criada dentro da elite e cercada de privilégios. É através do olhar dela que vamos conhecer como as jovens são preparadas para cumprir com suas obrigações como esposas dentro do regime totalitário. Ela faz parte da primeira geração a chegar à idade adulta dentro da nova ordem mundial. Daisy, nascida no Canadá, mantém uma vida normal longe de Gilead. Vai à escola e trabalha em meio período na loja de roupas usadas dos pais. Apesar de experimentar a liberdade negada às mulheres que vivem a milhares de quilômetros dali, não está alheia ao que acontece no lugar que um dia foi chamado de Estados Unidos da América e participa de protestos contra os horrores praticados além da fronteira. Tia Lydia, uma das executoras do regime, que exerce sua autoridade implacável por meio do acúmulo e da manipulação de segredos de Estado que podem ameaçar todas as estruturas do poder. Segredos dispersos e há muito enterrados, capazes de unir essas três mulheres, fazendo com que elas encarem quem realmente são e decidam até onde podem ir em busca do que acreditam. Adaptada para a TV na premiadíssima The handmaid’s tale, a distopia de Margaret Atwood, que começou com O conto da aia, ganha ainda mais profundidade em Os testamentos. Uma narrativa que vai percorrer a infância e juventude das mulheres de dentro e fora de Gilead, os segredos sobre as verdadeiras personalidades das Tias, as engrenagens de um regime ditatorial e como a resistência pode ser o único caminho para implodi-lo. "Caros leitores: tudo o que você já me perguntou sobre Gilead e seu funcionamento interno é a inspiração para este livro. Bem, quase tudo! A outra inspiração é o mundo em que vivemos.” – Margaret Atwood
Os testamentos [ebook] (O conto da aia #2) -
Margaret Atwood
"Amanhã há de ser outro dia."
Ainda preciso de uns dias para digerir totalmente esta estória, mas também preciso fazer esta resenha "no calor do momento". Não é à toa que a primeira resenha que escrevi por aqui foi de O Conto da Aia, porque eu precisava falar alguma coisa, qualquer coisa. Margaret provoca isso em mim. Ainda que seja difícil ler e digerir tudo isso, ou talvez por isso mesmo, considero essenciais essas leituras (dos dois livros) nos tempos em que vivemos. Margaret nos entrega uma continuação com muitas respostas que desejávamos, mas o mais marcante aqui é o desfecho e a esperança no futuro, apesar de tudo. Em O Conto da Aia a narrativa é feita pela June (Offred) e é restrita ao que ela vivia em Gilead, com alguns flashbacks. É uma narrativa intimista, e por isso experimentamos de perto o que ela sente e vive ali. Em Os Testamentos a estrutura muda, e com isso nossas percepções. Temos três pontos de vista e três linhas temporais, que em algum momento convergem para um objetivo. Para quem viu a série, dá para perceber desde a sinopse quem são essas personagens e foi por isso que eu fiquei com tantas expectativas para esta leitura. Felizmente, elas foram cumpridas. Para quem só leu o primeiro livro, talvez a experiência não seja tão completa e até fique um pouco confusa inicialmente, porque a autora incorpora elementos da série e, cronologicamente falando, os acontecimentos principais de Os Testamentos se passam anos após o fim da segunda temporada. (Mais detalhes: A primeira temporada é fidelíssima ao livro e ambos encerram com a mesma cena; a segunda temporada expande o contexto do primeiro livro e funciona como uma ponte para o segundo livro; o segundo livro narra o período pré-Gilead, o durante e o pós, e as consequências após o desfecho da segunda temporada.) Estou tentando resumir ao máximo para não entrar em spoilers, acreditem. A Tia Lydia é uma das personagens mais complexas e bem trabalhadas que já vi. Já ouviram aquela máxima de "não confundam a violência do opressor com a reação do oprimido"? Pois então. E a própria Tia Lydia diz: "como é que eu pude ser tão má, tão cruel, tão burra?, você vai se perguntar. Você pessoalmente nunca teria feito as coisas daquele jeito! Mas você pessoalmente nunca precisou fazê-las." A Daisy e a Agnes, as outras duas personagens, são igualmente bem construídas. Elas nasceram no mesmo lugar, mas cresceram e viveram em contextos totalmente opostos e, por isso, têm visões de mundo opostas. O exercício entre elas é superar as intolerâncias que aprenderam desde sempre como naturais e desenvolver a empatia e a disponibilidade do encontro com outras percepções. Necessidade essa das mais atuais aqui mesmo, na nossa realidade. E essa não é a única conexão possível. Há vários temas que a autora faz questão de trabalhar que são tirados daqui mesmo, que vemos dia após dia nas notícias do mundo afora. Como ela diz nos agradecimentos, nos trinta e cinco anos que separam as duas obras ela pensou em muitas respostas possíveis para uma continuação, e muitas dessas respostas já se tornaram realidade. Ainda que seja injusto - e desnecessário - comparar as duas obras, Os Testamentos é uma excelente continuação e impactante à sua maneira. Não me decepcionei nenhum pouco com os acontecimentos, embora gostaria de ter visto mais o desenvolvimento de algumas relações. Mas isso não é um deslize da autora, e sim algo de provocativo, de nos deixar imaginar como aquelas pessoas viveram a partir dali. E com o simpósio de História, anos depois, vemos algumas brechas desses acontecimentos. Nessa reconstituição, a mensagem: que não esqueçamos o nosso passado. E sigamos resistindo.
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