Após terminar O Ano do Dilúvio, segundo livro da trilogia, fiquei um pouco insatisfeita e não consegui me convencer completamente da construção de Toby, Ren e Zeb. Em MaddAddão, porém, Margaret Atwood finalmente conseguiu me envolver de forma mais profunda com esses personagens, especialmente Toby e Zeb. Curiosamente, foi justamente quando passei a me importar mais com eles que os grandes questionamentos da trilogia também ganharam ainda mais força para mim.
E foi então que comecei a me questionar: o que permanece quando uma civilização acaba? Glenn/Crake imaginou que seriam os Crakers, sua criação, mas, nesse terceiro volume da trilogia, fica claro que ele calculou mal ao acreditar que conseguiria eliminar a religião, a arte, o ciúme, a violência, a narrativa e tudo o mais que considerava responsável pelas agruras que arrastaram a humanidade ao ponto lamentável que tanto deplorava. Ele tomou essas características como defeitos, esquecendo-se que elas são partes inevitáveis da consciência humana.
Crake, como cientista, acreditava ser capaz de solucionar todos os problemas apenas eliminando nossa espécie e criando uma nova, pois estava convicto de que a humanidade era biologicamente incapaz de escapar de seus próprios impulsos. Para ele, o problema não estava na educação nem na cultura: o problema era o próprio projeto evolutivo do Homo sapiens.
Ainda assim, convencido de que estava salvando o planeta, comete um erro ético gigantesco e, ao final, fica muito longe de conseguir eliminar tudo aquilo que condenava na espécie humana.
A prova disso está nos próprios Crakers: eles não apenas aprendem histórias, eles criam mitos, interpretam o mundo simbolicamente, desenvolvem afetos, fazem perguntas e até começam a transformar Crake e Oryx em figuras divinas.
Nesse ponto, Atwood parece mostrar o quanto Crake subestimou a importância de contar histórias. Ele ignorava que apenas sobreviver não basta: os seres humanos precisam transmitir suas histórias e conhecer aquelas que vieram antes deles. Mitos são importantes para o crescimento e o aprendizado, dão sentido àquilo que ainda não compreendemos e alimentam a imaginação e a criatividade. Foi justamente essa parte tão humana que nos trouxe até aqui, para o bem ou para o mal. Sinto que, nesse aspecto, foi como se Atwood dissesse que uma civilização começa quando alguém decide preservar sua memória.
Não concordo com algumas das escolhas feitas para o final de MaddAddão, mas, no geral, gosto muito das grandes questões que Atwood aborda ao longo dos três livros: a ética científica, o domínio das grandes corporações sobrepujando os governos, a criação de novas espécies "aperfeiçoadas", a perda da moral e os limites ultrapassados sem que se meçam as consequências.
Mas, apesar de tudo isso, sinto que minha experiência com essa trilogia foi marcada por muitos altos e baixos, principalmente porque tive dificuldade em abraçar a forma como a autora escolheu contar essa história. Ainda assim, MaddAddão conseguiu me fisgar de maneira muito mais efetiva. Neste volume, Toby finalmente assume o centro emocional da narrativa, enquanto Zeb deixa de ser apenas uma figura misteriosa e ganha profundidade. Já Barba Negra representa, para mim, justamente aquilo que a trilogia vinha construindo desde o início: a continuidade da memória.
Sou uma leitora que ama se sentir arrebatada por personagens bem construídos e histórias bem contadas. Geralmente tenho facilidade para abraçar as mais diferentes formas de narrativas, mas, desta vez, confesso que encontrei dificuldade para mergulhar completamente na história e permanecer imersa nela.
Mesmo assim, termino essa trilogia admirando muito mais suas ideias do que propriamente a forma como elas foram apresentadas. E talvez isso, por si só, já diga bastante sobre a potência das reflexões que Margaret Atwood propõe.