Brandon Sanderson começa a saga Stormlight, que deverá ter 10 volumes, com uma história épica de alta fantasia que ressalta sua grande capacidade de criar mundos de fantasia originais e interessantes. Para quem não conhece o Sanderson, ele é o autor de Elantris, da trilogia Mistborn além de outros trabalhos, e foi o autor escolhido para terminar a saga The Wheel of Time. Brandon Sanderson vende horrores, é um dos melhores escritores da safra contemporânea (de 2000 até hoje) de fantasia medieval. E The Way of Kings é o primeiro livro da Saga Stormlight,onde ele quer deixar sua marca no gênero de fantasia.
E que marca! The Way of Kings é um livro muito bom, gigantesco (mais de mil páginas) mas escrito com maestria e transparência: como já tinha dito nas resenhas de Mistborn, Sanderson possui um estilo limpo e transparente, sem firulas, sem metáforas ou prosa intrincada. Essa aparente simplicidade é muito difícil de conseguir, falo por experiência própria como escritor. Sanderson, que é professor de Creative Writing da Brigham Young University (uma universidade mórmom em Provo, Utah) domina como ninguém todos os elementos da narrativa contemporânea. Para aspirantes e escritores inciantes, recomendo ler os livros de Sanderons, eles são uma verdadeira aula de escrita. Todos os elementos que precisamos aperfeiçoar estão todos lá: arcos de personagem, descrições emocionais, como lidar com flashbacks, como trabalhar monólogos interiores, emoções interiores e principalmente, como manipular as emoções do leitor para criar esperiências emocionais fortes.
O livro se passa em um mundo muito diferente do tradicional da fantasia medieval. O mundo de Roshar é feito de pedra e tempestades fortíssimas e frequentes. Essas tempestades são tão frequentes que toda a ecologia e as civilizações se adaptaram a elas. Animais se escondem em conchas (e são meio crustáceos), ávores se encolhem para se proteger das tempestades e até mesmo a grama se recolhe no chão. As cidades são construídas apenas em lugares onde a topografia oferece proteção.
A história se passa séculos depois da queda de dez ordens consagradas dos Caveleiros Radiantes, homens e mulheres portadores de armaduras e de Shardblades, armas mágicas de poder épico (e coloca épico nisso, exércitos de um homem só). As armaduras e shardblades que eles deixaram quando abandonaram o mundo são a causa de guerras e quedas de reinos, visto que um humano normal de posse dessas armas mágicas ganha grande poder.
Nesse cenário, Sanderson narra a história de três personagens, Kaladin (um escravo com um passado trágico), Shallan (a filha de um lorde) e Dalinar (o comandante de um dos exércitos mais poderosos do reino principal da história e portador de uma shardblade) além de vários outros personagens secundários. De todos estes, o que mais me fascinou foi a história de Kaladin, um personagem que criou uma legião de fãs pela internet.
O cenário é muito bem detalhado no livro, e sem os famigerados “infodumps”, aqueles blocos de informação bem amadores que descrevem um cenário. Sanderson mistura a descrição do cenário em meio ao texto, nos diálogos, na ação, de maneira que em pouco tempo o leitor já está totalmente imerso no universo.
Tem muita ação épica, monstros crustáceos gigantescos, uma guerra com uma civilização misteriosa e muito mais!
O sistema de magia,seguindo a tradição do fantástico Misborn, é bem original e diferente, envolvendo manipulação de energia e transmutação. O livro começa a explicar, mas espero saber mais sobre o sistema nos livros posteriores.
Way of Kings trabalha com vários temas interessantes, como lealdade e honra, confiança e fé, a natureza do mal e a tragédia da guerra. É interessante ver como Sanderson, que é Mórmon, lida com a questão da espiritualidade de uma maneira bem profunda, sem medo de explorar todos os aspectos da crença e da descrença. Assim como em Mistborn, existe um debate muito inteligente sobre ateísmo e fé religiosa, assim como existencialismo e de como encontrar motivação para viver mesmo quando tudo parece estar perdido.
Como é um livro do Sanderson, apesar dos temas sérios e de cenas de violência e crueldade, a linguagem é mais limpa (ele não usa palavrões nos seus livros) e não tem cenas de sexo. Mas tem muita ação e personagens bem construídos. O livro segue uma moralidade mais clara, sem o acinzentado mais comum em outros livros como do Joe Abercrombie ou George R.R. Martin, mas essa diferença entre o bem e o mal é bem trabalhada, com nuances e sutilezas e tras uma lufada de esperança na humanidade para o leitor. Eu gostei muito dessa diferença na moralidade, é uma retrabalhada e atualizada nos conceitos de bem e mal, seguindo uma visão mais humanista desse dilema.
De acordo com The Way of Kings, o bem precisa ser criado pelos próprios homens, e apenas os mais corajosos conseguem agir de maneira correta quando necessário. A recompensa do bem, da ação não-egoista é a própria ação não-egoísta, é o fato de que, apesar do comum do comportamento humano é agir para si-próprio, o indivíduo decide ajudar ao outro pela própria liberdade de poder fazer essa escolha.