A Farsa -

    Raúl Brandão

    Luso Livros
    2017
    204 páginas
    6h 48m
    ISBN-10: B003HGGHZG
    Português

    A Farsa conta a história de Candidinha, um velha marginalizada pela sociedade, que decide, sob a farsa da submissão e da simpatia, promover a discórdia, o ódio e a maldade entre aqueles que a rodeiam. 'Há existências inúteis, para quem a vida se reduz ao estreito âmbito formado pelas paredes que as cercam. Vivem por hábito. Sabem apenas exprimir-se com seis palavras rançosas. São um misto de papelada, de números de ideias estúpidas e vãs, de frases gastas e falsas.' Publicada em 1903, “A Farsa” de Raul Brandão é, possivelmente, a sua obra que mais se aproxima da estrutura narrativa de um romance convencional. Não deixa, no entanto, à semelhança das outras obras do autor, de ser uma obra de carácter expressionista, marcada pelas correntes do Simbolismo e Decadentismo. A obra mistura também elementos romanescos, trágicos, cómicos, farsantes e até líricos numa prosa marcadamente poética: “a água come as pedras, as lágrimas molham e desgastam as criaturas” – uma característica estilística usual em Raul Brandão. A Farsa é essencialmente uma narrativa dramática que discorre sobre a ideia e a forma como nós, indivíduos, usamos máscaras sociais como fachada e dissimulação, para encobrir a nossa interioridade conturbada e o nosso “eu” psicológico verdadeiro que é cada ser humano, reduzindo esta ideia aos traços grosseiros da caricatura, mas sempre com uma sensibilidade inigualável, como todas as obras de Raul Brandão.

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    Tiago Vinhoza19/10/2023Resenhou um livro
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    Candidinha, a raiva e o rancor personificados

    Para alguém como eu que só conhecia Raul Brandão pela sua literatura de viagem, esta leitura foi um choque. A linguagem dura, bruta chega até a chocar quem estava acostumado com a prosa poética quase idílica de “Os Pescadores” e “As Ilhas Desconhecidas”. A personagem principal, Candidinha, é uma velha pobre, sofrida e maltratada pelas outras velhas da vila. A sua raiva, seu rancor e ódio por tudo e todos é descrito de forma duríssima. Chega a ser chocante. Não é uma leitura fácil. Temos o pior da natureza humana. Candidinha é quase uma versão feminina do homem do subsolo de Dostoiévski.

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