Herdeira das civilizações com as quais contactou ou cuja presença sentiu, a arte românica não é facilmente definível em termos cronológicos. Mesmo assim, há um consenso por parte dos historiadores quanto a assinalar- lhe o início por volta do ano mil, integrando na sua génese contributos vários, desde os galo-romanos aos monges irlandeses, passando pelo Oriente cristão (Arménia, Síria, Bizâncio), pelo islão ou pelos povos ditos “bárbaros”, como os celtas, os visigodos ou os vikings. Comparada com a arte gótica, que lhe sucedeu a partir do século XII, a arte românica encerra uma extraordinária variedade de expressões e formas. Assim definida no século XIX por Arcisse de Caumont, um arqueólogo francês que viu nela uma descendência abastardada da arte romana, a arte românica não se reduz a isso. Para Nicolas Reveyron, professor de História de Arte Medieval (a quem coube sintetizar- lhe o percurso e os traços históricos essenciais, logo nas primeiras páginas deste novo “ABCedário”), a arte românica “não se reduz àquilo que nos oferece de mais próximo, de mais acessível. É essencialmente outra coisa. Inspirada, grosseira, imponente, subtil ou requintada, sempre ultrapassando as aparências imediatas, mesmo quando se inspira no naturalismo antigo, abre portas desconhecidas para visões tão estranhas à nossa racionalidade, tão poderosas como as do Apocalipse ou das grandes epopeias guerreiras”. As igrejas, por exemplo: enquanto a basílica paleocristã revela a preocupação de juntar os fiéis numa mesma comunhão, a igreja românica é focalizada no altar, toda ela em perspectiva, hierarquizante, monumental. Há exemplos de abadias tão grandes como catedrais, senão mesmo maiores: a igreja abacial de Cluny (França) ficou, para toda a Idade Média, como a mais vasta igreja do Ocidente. Já os vitrais ilustram as reflexões teológicas da época. Os mais prestigiosos são os da charola da basílica de Saint- Denis, executados por volta de 1140- 1145, por ordem do abade Suger, figura de charneira entre as eras românica e gótica. Ele próprio ali se fez figurar, na base da cena da Anunciação. Dois pontos marcantes da arte românica são a arquitectura (pujante no volume, na estrutura e nos materiais) e a escultura, onde a pedra tem um papel progressivamente primordial. Nos capitéis, por exemplo, onde se expõem em cuidado recorte legiões de demónios, anjos ou monstros. Mais tarde, o desaparecimento dos capitéis empurrará as figurações esculpidas para o exterior dos templos. É nessa altura que nasce o portal gótico.
ABCedário da Arte Românica (Série Arte) -
Nicolas Reveyron, Verónique Rouchon Mouilleron
Público (Reborn)
2000
119 páginas
3h 58m
ISBN-10: 9728179596
Português
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