Considerado um dos documentos fundadores do feminismo, o livro denuncia a exclusão das mulheres do acesso a direitos básicos no século XVIII, especialmente o acesso à educação formal. Escrito em um período histórico marcado pelas transformações que o capitalismo industrial traria para o mundo, o texto discute a condição da mulher na sociedade inglesa de então, respondendo a filósofos como John Gregory, James Fordyce e Jean-Jacques Rousseau. Libertária, Mary Wollstonecraft fez de sua própria vida uma defesa da emancipação feminina: envolveu-se na Revolução Francesa e foi uma precursora do amor livre. Tendo falecido logo após o parto de sua segunda filha, não pôde vê-la tornar-se, também, uma famosa escritora: Mary Shelley, a autora de Frankenstein. Extremamente revolucionário para a época, Reivindicação dos direitos da mulher foi traduzido para vários idiomas, se tornou uma referencia teórica para as precursoras do feminismo contemporâneo, como Simone de Beauvoir, e uma leitura essencial para as discussões de gênero. "Reivindicação dos direitos da mulher resulta tanto de uma trajetória de lutas militantes de Mary como de seus enfrentamentos contra a moral sexista e conservadora da época", diz Maria Lygia Quartim de Moraes, que assina o prefácio. Citando a feminista britânica Sheila Rowbotham, ela argumenta que Mary, "como mulher de razão e mulher de natureza", personifica a tensão e as fissuras do Iluminismo, e que a leitura deste livro - escrito em linguagem direta e marcante - "desperta um sentimento de admiração por essa jovem mulher, capaz de superar tantos obstáculos, que lutou obstinadamente para ser feliz e foi muito além dos limites que seu tempo permitia". A edição também traz texto de orelha de Diana Assunção, historiadora e militante dos direitos das mulheres (ISKRA); uma cronologia da vida e obra de Mary Wollstonecraft e uma página sobre trajetória da escritora em quadrinhos, de Fred Van Lente (adaptação) e Ryan Dunlavey (arte), publicada originalmente na antologia Cânone gráfico, volume 1: clássicos da literatura universal em quadrinhos (Barricada, 2014).
Reivindicação dos direitos da mulher -
Mary Wollstonecraft
A luta pela igualdade de gênero continua atual.
"Reivindicação dos direitos da mulher" é considerado um dos documentos principais referentes ao pensamento feminista. A sua publicação em 1792, pouco depois da Revolução Francesa, foi uma resposta à promulgação da Constituição Francesa de 1791, que excluía as mulheres do papel de cidadãs. Aqui, nota-se, que as ideias iluministas influenciaram a criação desse documento, e isso ajudou a autora a enfrentar grandes nomes do pensamento filosófico da sua época, indo na contramão de seus pensamentos, como por exemplo, de Rousseau que é citado no livro, além de ser o seu alvo principal, atacado de forma direta e irônica. "O ser que pode governar a si próprio não tem nada a temer na vida." A grande defesa de Mary Wollstonecraft é a educação, sobretudo, a feminina, defendendo que as mulheres devem ser educadas intelectualmente. Ela também discorre sobre a valorização moral em bases cristãs, - ainda que ela tenha tido uma vida fora do comum, transgressora e à frente do seu tempo, principalmente a amorosa, fora dos padrões -, e a fervorosa defesa da razão e do pensamento racional (trazido do Iluminismo). "Desejo persuadir as mulheres a se esforçarem para adquirir força tanto da mente quanto do corpo." A autora critica a educação feminina voltada para os bons modos, a beleza e a graciosidade, que segundo ela, enfraquece a mente da mulher, tornando-a submissa e infantilizada, o que seria ruim para a sociedade, e que nada mais é do que o resultado da maneira que são criadas. Basicamente, ela aponta aspectos da sociedade que não colocavam a mulher e o homem em pé de igualdade e que criando mulheres de forma diferente dos homens, acaba-se criando mulheres que não estarão aptas para viver em sociedade. "Espero que meu próprio sexo me desculpe caso eu trate as mulheres como criaturas racionais, em vez de adular suas graças fascinantes e considerá-las como se estivessem em um estado perpétuo de infância, incapazes de ficar sozinhas." Longe de ser uma leitura fluida, trata-se de um livro complexo que se repete bastante a fim de nos fazer entender e de argumentar a favor dos direitos igualitários da mulher. Durante a leitura me vejo concordando e discordando com muito do que a autora defendia, mas consciente que ela baseia sua análise com o mundo que conhecia, há mais de 200 anos, o que é bastante compreensível. O fato da autora dialogar com outros autores, pode deixar o leitor um pouco perdido quando não se sabe de quem se trata, apesar das notas contidas no livro. Enfim, o livro não traz coisas tão novas, porque avançamos em muitos aspectos em relação às diferenças de gênero, porém podemos ver que ao compararmos com os tempos atuais, ainda existem algumas questões que permanecem quase da mesma forma e que continuam sendo discutidas. "O entendimento do sexo feminino tem sido tão distorcido por essa homenagem ilusória que as mulheres civilizadas de nosso século, com raras exceções, anseiam apenas por inspirar amor, quando deveriam nutrir uma ambição mais nobre e exigir respeito por suas capacidades e virtudes." "Eis um texto escrito em fins do século XVIII que continua atual." ^^
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