Leituras de 2022 | Clube de leitura da @circulares.livros
O arador das águas [1993]
Hoda Barakat (Líbano, 1952-)
Tabla, 2021, 240 p.
Trad. Safa Jubran
Há certa altura deste romance, o narrador diz à pessoa amada: você deve voltar para casa. Deve ficar um pouco mais dentro do que eu contei a você, do que ouviu. Como o bicho-da-seda, você deve jejuar, resistindo ao apetite voraz de escutar, para que o belo fiar da história se complete. Esse conselho de reclusão (além de beneficiar indiretamente leitoras e leitores que se decidirem a ouvi-lo) é um gesto que contamina a narrativa em diferentes instâncias, à medida que a história que se conta na superfície tece outras histórias lendas, memórias, teares e trançados urdidas na melancolia dos escombros e das memórias familiares perdidas.
O arador das águas conta a história de uma Beirute devastada pela guerra e abandonada à própria sorte, onde um vendedor de tecidos passa seus dias entre prédios abandonados e ruas bombardeadas, em busca de comida e proteção contra o frio e as feras à espreita. Nesse ambiente antes familiar agora hostil, a lembrança dos tecidos e dos ensinamentos contados pelo pai sobre as origens do linho, do veludo e da seda, por ex., resgatam a humanidade de Niqula em meio à desumanização do conflito que transforma a paisagem ao seu redor. Assim como o mantém vivo as recordações de sua amada Chamsa, descendente de curdos que também traz ao romance sua própria parcela de desterro, luta, poesia e resistência.
Entre o sonho e o delírio, entre a tradição transmitida oralmente e o trauma coletivo da guerra, os caminhos traçados pelo corpo e pela mente de Niqula perfazem um conhecimento que, como a trama dos tecidos, não deix[a] vestígio nos sedimentos nem nas sucessivas camadas, um tanto semelhante ao pó deixado pelo músculo do coração. Muito diferente da proposta e do registro que me fizeram me apaixonar pela autora após a leitura de Correio noturno, há neste romance um certo lirismo contemplativo que resiste às atrocidades e ensina que todo fiar é feito de tempo e de histórias sobretudo aquelas que mãos e ouvidos atentos conseguem guardar, proteger e levar adiante.