Doroteia carrega muita dor e culpa, um peito cicatrizado pelo luto, uma vida estigmatizada pela miséria e suas implicações. Diante disso, ela pede acolhimento para três primas. Entretanto, essa ajuda só seria ofertada com uma condição: se Doroteia perdesse a beleza.
Pensei que iria gargalhar nos atos dessa peça, mas senti incômodo, um desconforto contínuo, ao pensar que algumas mulheres são ensinadas, desde cedo, a odiar outras mulheres.
Com frequência, comento acerca disso em casa. É que recordo de ser criança e ouvir mulheres próximas implicando com aquela vizinha vaidosa, com aquela mulher que passou na rua bem vestida, esbanjando autocuidado. Também lembro da implicância com aquela mulher que apenas se parecia feliz. Doroteia, rememorou esse sentimento constrangedor e maldoso, e me fez pensar nos censores da felicidade alheia.
Nelson não viveu o bastante para ver a proliferação disso nas redes sociais, mas na sua "Doroteia," lá na década de 50, já abordava a falta de sororidade ( termo que talvez, nem se pensasse na época), abordava o feminismo seletivo, a dualidade das religiões, a repressão sexual.
Essa é uma história em que o amor é um pecado com uma punição iminente.
É uma história sem homens, é uma história em que mulheres não dormem para não sonhar
Miseráveis mulheres, não consigo me imaginar em um mundo em que eu não possa sonhar.