Dorotéia -

    Nelson Rodrigues

    Nova Fronteira
    2012
    104 páginas
    3h 28m
    ISBN-13: 9788520930694
    Português Brasileiro

    A obra teatral de Nelson Rodrigues exibe o olhar irônico e satírico deste dramaturgo genial sob re um país e uma sociedade em transformação vertiginosa. Nas 17 peças que escreveu ao longo de sua carreira, ele inaugurou e consolidou o modernismo no teatro brasileiro. Dorotéia, ex-prostituta que largou a profissão depois da morte do filho, vai morar na casa de suas primas, três viúvas puritanas e feias que não conseguem enxergar os homens e não dormem para não sonhar. Ao contrário das mulheres da família, Dorotéia é bonita, exuberante e não tem aversão aos homens. Mas, em troca de abrigo, aceita se tornar tão feia e puritana como as primas. Dorotéia, que estreou em 1950, é uma das peças míticas de Nelson. Nela os homens estão ausentes: eles só aparecem na fala das personagens femininas.

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    Ana de Sá picture
    Ana de Sá10/10/2021Resenhou um livro
    3 (Bom)

    ... não consigo me imaginar em um mundo em que eu não possa sonhar.

    Doroteia carrega muita dor e culpa, um peito cicatrizado pelo luto, uma vida estigmatizada pela miséria e suas implicações. Diante disso, ela pede acolhimento para três primas. Entretanto, essa ajuda só seria ofertada com uma condição: se Doroteia perdesse a beleza. Pensei que iria gargalhar nos atos dessa peça, mas senti incômodo, um desconforto contínuo, ao pensar que algumas mulheres são ensinadas, desde cedo, a odiar outras mulheres. Com frequência, comento acerca disso em casa. É que recordo de ser criança e ouvir mulheres próximas implicando com aquela vizinha vaidosa, com aquela mulher que passou na rua bem vestida, esbanjando autocuidado. Também lembro da implicância com aquela mulher que apenas se parecia feliz. Doroteia, rememorou esse sentimento constrangedor e maldoso, e me fez pensar nos censores da felicidade alheia. Nelson não viveu o bastante para ver a proliferação disso nas redes sociais, mas na sua "Doroteia," lá na década de 50, já abordava a falta de sororidade ( termo que talvez, nem se pensasse na época), abordava o feminismo seletivo, a dualidade das religiões, a repressão sexual. Essa é uma história em que o amor é um pecado com uma punição iminente. É uma história sem homens, é uma história em que mulheres não dormem para não sonhar Miseráveis mulheres, não consigo me imaginar em um mundo em que eu não possa sonhar.

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