Considerado por críticos e historiadores literários como uma dos romances mais importantes da literatura brasileira, A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, em 2021está completando 50 anos de sua primeira publicação. Em comemoração a esta data, a Nova Fronteira lança este box que traz, além do romance propriamente dito, um belíssimo Caderno de Textos e Imagens, contendo a reprodução de vários documentos e obras de arte ligados ao seu processo de criação e à sua divulgação, incluindo preciosidades do acervo do escritor que fazem do conjunto um inestimável presente para os seus leitores e os estudiosos da literatura brasileira, de um modo geral. Dentre estas preciosidades, trechos do manuscrito “Sinésio, o Alumioso”, a mais antiga versão da narrativa de Quaderna, datado de 1958 e até hoje jamais divulgado, na íntegra ou em parte, e o texto integral da também até hoje inédita “conclusão” que Suassuna escreveu para uma versão televisiva do romance, cuja estreia ocorreu em 2007. A seleção, organização e apresentação do volume especial são assinadas por Carlos Newton Júnior, o projeto gráfico de todo o conjunto é de autoria de Ricardo Gouveia de Melo, e a direção de arte, bem como as ilustrações das capas, são de Manuel Dantas Suassuna, filho do escritor. Edição Especial de 50 anos - Capa Dura
Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta - Edição especial de 50 anos
Ariano Suassuna
A Pedra do Reino é um livro complexo, cheio de significados e bem diferente do que eu esperava quando comecei a leitura. Foi a primeira obra que Li de Suassuna, sendo que no máximo havia visto adaptações de seu trabalho como a minissérie Auto da compadecida da Globo mais de 20 anos atrás. O próprio livro é difícil de se classificar. Carlos Drummond de Andrade o chamou de Romance-memorial-poema-folhetim. Já Rachel de Queiróz descreve-o como: ...é romance, é odisseia, é poema, é epopeia, é sátira, é apocalipse... e seu narrador/protagonista também faria questão de salientar a existência da safadeza na obra além de provavelmente acrescentar vários outros adjetivos. O livro conta a história e é narrado por Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, descrito por si mesmo como um poeta-escrivão, cronista, charadista e astrólogo, além de descendente dos Reis do sertão, remetendo a uma história real acontecida cem anos antes da época em que se passa a história. No qual dezenas de pessoas foram mortas em um frenesi religioso. Quaderna, seria o descendente do Rei louco que promoveu a chacina e acredita ter o direito à coroa (ao contrário dos falsos reis da casa de Bragança) e só não toma uma atitude, pois ele próprio sabe que é covarde e tem medo de ser morto igual seu antepassado infame. Mas Quaderna, não satisfeito em narrar a própria história, em sua narrativa mistura cultura sertaneja, poemas, literatura brasileira, ideologias políticas e crenças religiosas e além da própria História do Nordeste brasileiro, com ênfase da Paraíba e Pernambuco. Há uma grande influência do Sebastianismo em sua fala: a crença de que o Rei Português D. Sebastião não morreu na batalha de Alcácer-Quibir na África em 1578 e que um dia ainda retornará para criar o Quinto Império, o reino de deus na terra, onde não existiria miséria, fome ou desigualdade. Crenças que também foram a base de um dos mais famosos levantes da História do Brasil: A Guerra de Canudos. O livro acaba se tornando além de um romance, um tratado filosófico, religioso, político e até mesmo histórico e literário, em uma mistura que é difícil saber o que é inventado pelo autor e o que é História. É uma obra definitivamente interessante, mas bem complexa de se ler. O narrador é por demais verborrágico e para cada pequeno detalhe de sua história vão-se páginas e páginas de ideias, ideologias, poemas ou qualquer outra coisa que o ajude a contar a história do jeito que deseja. Tanto que a maior parte das suas quase 800 páginas se refere a um depoimento de apenas 4 horas, prestado frente a um corregedor que investiga a história do Rapaz do Cavalo Branco. História essa que é citada desde o início da obra e que mesmo assim o livro termina antes que se desvende-a totalmente. Inicialmente, a Pedra do Reino seria a primeira parte de uma trilogia, mas Suassuna desistiu da ideia enquanto trabalhava no texto do segundo volume. E com o passar dos anos revisou a obra original de forma a encerrá-la em si mesma (embora deixando várias pontas soltas, propositadamente, segundo seu narrador/personagem). Para quem se interessa em ler o livro, a minha principal recomendação é que leia com calma e com todo o tempo necessário. Eu demorei quase 03 meses para concluir a leitura e mesmo assim tenho a certeza de que muitos detalhes passaram desapercebidos.
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