O livro é inspirado na Peste Negra que dizimou 1/3 da Europa e na jornada da Princesa Joana da Inglaterra em 13-e alguma coisa.
Desde o início da pandemia, evito qualquer história que me faça lembrar, mesmo que vagamente, da atual situação mundial porque me perturba demais. E <i>Year of the Reaper</i> foi divulgado como "o livro da covid" em alguns lugares que vi.
Porém esse livro não me engatilhou nem um pouco.
A prosa da autora é maravilhosa. Não é piegas nem com frases feitas sobre coragem e força.
Todos os personagens deste livro (com exceção talvez do idiota do rei - explico depois porque tenho 0 paciência e empatia com esse tosco) sofrem de estresse pós-traumático. Além de todos estarem lidando com a vida pós-praga (algo que, fé em Deus, ocorrerá com a gente em pouco tempo), se dando conta das pessoas que perderam, incrédulos de terem sobrevivido, recolhendo os cacos, estão lidando também com o mundo pós-guerra. Uma guerra sangrenta entre os reinos de Brisa e Elvira (se não me engano) cuja duração é tão longa que ninguém mais se recorda quantos ano dura e que teve seu fim com o casamento do rei de Elvira e a princesa de Brisa
também estão absorvendo o mundo pós-guerra.
Então, é muita coisa que os personagens do livro tem que absorver para seguir em frente com a vida. Mas os traumas, as cicatrizes, o rancor, as perdas pesam para todos eles.
E a autora conseguiu construir uma atmosfera que transmite exatamente isso. Como é difícil para os personagens seguirem em frente, voltarem ao que eram, tocarem a vida. Todos estão tentando, cada um de um jeito e, às vezes, sem ter tempo de tirar uma licença. A família real agora ocupa a mansão do protagonista, Cas, e está sofrendo atentados.
Cas acabou de voltar para casa após três anos infernais nas prisões de Brisa e tudo que queria é sossego. Mas precisa descobri quem está por trás das tentativas de morte contra a família real.
Ele tem ajuda de Lena, que, à princípio achei que ocupava o posto de coprotagonista, mas ela tá mais para interesse romântico de Cas mesmo. Não que seja ruim, ela é uma personagem ótima, com personalidade e espaço na trama, mas é notável que o foco é em Cas.
Foi importante a autora dar histórias de fundo para todos os personagens secundários. Eles variam de idade e profissão, mas passaram pela mesma coisa que Cas: a praga, a guerra. O ponto de vista deles foi válido e deu autenticidade à história.
De início, confesso, pouco dei bola pro atentado contra a vida do príncipe, ou a reação do rei e da rainha ao perigo que o filho correu. A autora descreve os monarcas como pais e a fúria deles que alguém tentou ferir seu bebê. Acho que era pra passar humanidade aos personagens, mas gasto pouca energia com a monarquia. Pra mim são um bando de parasitas mimados dando ordens e sendo obedecidos, sendo paparicados e sem a menor noção do mundo real, do sofrimento real. Até que a Rainha Jehan me surpreendeu com isso, mas seu marido foi exatamente que imaginei. Um embuste.
Rei Rayan é um fracasso em tudo que se propõe. A autora não deu esse tom a ele, eu que achei tudo isso. Um inútil. Não serviu nem para carregar o amigo pro quarto. Não fez um sacrifício, não teve que guardar segredo, não enfrentou nada, não viajou milhas e milhas pelos campos tomados de pessoas doentes. Nada. Uma vida privilegiada.
A trama tem um ar de fantasia e mistério, já que os personagens querem saber quem está ameaçando a família real e assassinado as pessoas próximas a ela. A resolução foi muito boa. Não tanto criativa e não é uma crítica. Ninguém inventa a roda hoje em dia. Mas com um toque de humanidade que te faz compreender as motivações de todos por trás da situação, não somente do assassino e lamentar pelo envolvidos.
Não concordei com todas as decisões da autora, especialmente em relação ao tratamento do rei Rayan a alguns personagens que ele chama de amigo, sem sequer ver o lado do outro e analisar a situação difícil que o amigo se encontrava, provando que o rei é um pateta inútil e toda minha primeira impressão sobre ele estava certa, mas não poderia dar menos que 5 estrelas para o livro nem por isso.
Esta foi uma das melhores leituras que já fiz. Espero que este livro faça burburinho o suficiente para atrair atenção de alguma editora brasileira.