No vilarejo de Hukuméiji, no norte da Colômbia, a chuva torrencial leva lama, casas e cadáveres, enquanto desperta a memória das pessoas. O corpo humano, que experimenta prazer e desejo, também conhece o horror da violência mais brutal e permanente, porque lá - como aqui - todos tem algo arrancado de si: familiares, partes do corpo, terra, afetos. No entrando, a lembrança do passado incita outras formas de se comunicar, de amar, de continuar vivendo. Com uma escrita tão visceral quanto poética, Vanessa Londoño faz do corpo mutilado não só um sistema de explicação para a perda, mas tbm uma forma de evocar a empatia, a fim de compreender a ausência, a morte, a injustiça e a brutalidade com que o poder procura administrar as existências, as cores e os desejos, hoje, na América Latina. Cerco animal é a história de um lugar incapaz de curar suas feridas mais profundas.
Cerco animal -
Vanessa Londoño
Leituras de 2022 | Cortesia da editora Cerco animal [2021] Vanessa Londoño (Colômbia, 1985-) Peabiru, 2022, 100 pág. Trad. René Duarte Cerco animal é o primeiro romance da colombiana Vanessa Londoño e, apesar de sua brevidade, não é uma leitura fácil ou de digestão tranquila. Espalhadas por quatro capítulos não-lineares, suas personagens habitam uma cidade fictícia perto do mar do Caribe, norte da Colômbia, e transitam entre a violência observada no presente e a brutalidade que atravessa suas próprias lembranças, tão tangíveis quanto a chuva que traz à tona corpos mutilados. Frutos do consórcio insidioso entre estado de exceção e esquecimento, as existências que sobrevivem e se narram neste romance estão condenadas a um precário devir latinoamericano. Nas palavras da própria escritora, elas sitiam um centro que está sempre a expulsá-las, [...] porque os estados latinoamericanos estão permanentemente expulsando corpos que não importam para eles." Uma jovem cuja língua fora cortada por milicianos, uma mulher que teve ambas as mãos decepadas, uma mãe indígena condenada à tortura e morte por ter ousado usar sapatos, um filho, entre tantos filhos e filhas, explorado sexualmente: vivências que fazem eco a casos e pessoas reais da história da América Latina (pois de diferentes países, ainda que majoritariamente da Colômbia) e testemunham as consequências de um edifício social fundado sobre estruturas autoritárias (racistas, coloniais, misóginas, patriarcais). Essa leitura talvez justifique, em certa medida, a construção do romance. Apesar de cada capítulo dar voz a diferentes personagens, essas vozes são quase diáfanas quando tentamos capturá-las e encerrá-las em identidades bem definidas: estas existem, mas à medida que ganham corpo através do risco narrativo, também se fantasmagorizam como desmemória de todos nós, povos despossuídos. Cerco animal foi a primeira publicação da Peabiru, que já conta com um segundo livro em seu catálogo: o Pra te comer melhor, da Giovanna Rivero (Bolívia). Se você ainda não conhece a editora, fica a dica para segui-la aqui no IG.
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