Amor e lixo -

    Ivan Klíma

    Carambaia
    2022
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-13: 9786586398717
    Português Brasileiro

    Censurado pelo regime comunista e com o passaporte confiscado, um escritor é obrigado a se empregar como gari nas ruas de Praga. Com esse ponto de partida, Ivan Klíma constrói Amor e lixo, em tradução direta do tcheco por Aleksandar Jovanović. Completa o volume uma longa entrevista concedida pelo autor ao americano Philip Roth em 1990, com tradução de Paulo Henriques Britto. Não sem boa dose de melancolia, o narrador anônimo do romance evoca a razão de ter começado a dar seus primeiros passos na literatura, aos 18 anos: “O sofrimento decorrente de uma vida privada de liberdade parecia-me o mais importante de todos os temas a respeito dos quais cabia refletir e escrever.” Como seu personagem, Klíma, que completou 90 anos em 2021, viveu mais de duas décadas sem poder publicar – desde o silenciamento da Primavera de Praga pela ocupação soviética, em 1968, até a Revolução de Veludo, que encerrou o regime de partido único, em 1989. O escritor não chegou a recorrer à profissão de gari, mas trabalhou durante alguns dias na varrição de ruas como preparação para escrever o romance. O livro se inicia no primeiro dia de trabalho, quando o protagonista conhece o grupo excêntrico de pessoas com quem compartilhará o ofício e mesas de bar. Como tarefa paralela, ele está às voltas com um ensaio sobre Franz Kafka que não terá chances de publicar tão cedo. Sua vida sentimental vive um impasse, dividindo-se entre a esposa, uma médica humanista com quem tem dois filhos, e a amante, uma temperamental escultora casada. Além disso, seu pai agoniza num hospital. A narrativa se desenvolve no formato de uma colagem reflexiva – os dias de trabalho e amor são entremeados por alguns sonhos, lembranças de infância e muitas reflexões sobre Kafka, seu gênio, sua integridade artística e seus fracassos amorosos. Escrito entre 1983 e 1986, Amor e lixo foi publicado em 1990, logo depois da queda do comunismo no Leste Europeu e foi o mais bem recebido dos livros de Klíma, vendendo 100 mil exemplares da primeira edição. Não há nada de ultrapassado em sua essência. Além de tratar de temas atemporais, o romance aborda questões das mais atuais, como o conflito Leste-Oeste, a ameaça das armas nucleares, o acúmulo de lixo intratável e até o derretimento das calotas polares. No panorama da literatura tcheca, Klíma pertence a uma geração excepcional. Foi contemporâneo e companheiro de luta política dos dois escritores tchecos mais conhecidos internacionalmente, Milan Kundera e Václav Havel, que se tornou o primeiro presidente pós-comunista do país. A Revolução de Veludo significou um triunfo para esse grupo de intelectuais. “Quase ninguém continuava a se identificar com um regime que tantas vezes havia humilhado, enganado e roubado as pessoas”, diz Klíma na entrevista a Philip Roth. Klíma escreveu contos, romances, peças de teatro e roteiros de filmes de animação. Sua autobiografia em dois volumes, Meus anos loucos, ganhou o prêmio literário mais importante da Tchecoslováquia, o Magnesia Litera. Amor e lixo sai pelo selo Ilimitada, voltado para títulos de escritores que ainda não caíram em domínio público e podem ser reimpressos de acordo com a demanda. A capa é de Kevelyn Oliveira.

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    jota 1115/03/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    ÓTIMO: meio complicado de ler; são histórias fragmentadas que vão e voltam, mas que valem a pena conhecermos; poesia e prosa entornada no chão...

    Quando penso em literatura tcheca, sempre me vem à memória os livros de Franz Kafka (A Metamorfose, especialmente) e Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser, idem), dois autores notáveis que são mencionados várias vezes na longa entrevista que Ivan Klíma (nascido em 1931) deu para Philip Roth em 1990, Conversa em Praga com Ivan Klíma, presente nas páginas finais deste volume. Kafka é um escritor admirado por outros escritores e tanto Klíma quanto Roth já o reverenciaram em suas obras, então falam bastante dele nessa entrevista. Em Amor e Lixo o autor de A Metamorfose é quase um personagem tão destacado quanto o escritor anônimo que se vê transformado não em um besouro ou numa barata, mas num varredor de ruas por conta do estado policialesco instalado na então Tchecoslováquia entre 1968 a 1989. A população era controlada e oprimida pela União Soviética, o que não deixava de ser uma situação kafkaniana para qualquer escritor sensato, não bajulador do regime, e ainda mais pelo modo como Amor e Lixo foi escrito. O próprio Klíma reconhece que o livro é uma bagunça, melhor, nas suas próprias palavras, ”é uma espécie de colagem de vários temas ou histórias fragmentadas. Lembro-me de que, quando passei o livro, ainda em manuscrito, a meus amigos, indaguei se não se importavam com essa bagunça, mas concluí que não, aceitaram o romance como um todo.” O pensamento do personagem ora está consigo mesmo, ora com Kafka e a literatura, com a mulher ou com a amante, com os colegas de varreção, com o pai, com seu filho, com a situação do país, etc. Uma palavra que o leitor vai encontrar o tempo todo durante a leitura é “jerkish”, ou “imbecilês”, que Roth informa que “(...) é o nome da língua criada nos Estados Unidos há alguns anos para a comunicação entre pessoas e chimpanzés; ela consiste em 225 palavras, e o protagonista de Klíma prevê que, depois do que aconteceu com seu próprio idioma sob o regime comunista, não vai demorar para que o imbecilês seja falado por toda a humanidade.” Na televisão, na internet, especialmente nos vídeos do YouTube, é possível encontrar muita gente falando “jerkish” faz tempo, não? Daí que é preciso, cada vez mais, lermos boa literatura. Bem, como apontou alguém, pela situação que vivem, tanto o escritor transformado pelo Estado em gari quanto seus colegas de trabalho, todos eles dividem um sentimento que é na verdade o desejo de fugir da realidade, elevar-se acima dela. Desejo esse que materialmente é impossível de se realizar na condição em que se encontram, o que cria então um dilema pessoal que Klíma transformou aqui numa historia original. Que ao mesmo tempo é coletiva, pois poderia se dar com qualquer um vivendo sob um regime opressor como a URSS impunha aos países satélites. E agora (o filho da) Putin parece querer trazer de volta esse pesadelo do passado, começando pela Ucrânia. Numa dessas suas fugas, de seus (muitos) devaneios, o escritor-gari tcheco relembra um poema do francês Jacques Prévert (1900-1977), Parfois Le Balayeur, ou Às vezes o varredor, que diz um tanto sobre sua condição; com ele encerro meus comentários: E pode acontecer a um varredor que acena sem esperança pra cá e pra lá com a vassoura suja entre ruínas poeirentas de uma exposição colonial vil pare maravilhado diante de estátuas extraordinárias de folhas e flores secas que representam o que certamente não é um sonho crimes celebrações raios e risos e de novo desejo árvores [e pássaros e também a lua o amor o sol e a morte… Lido entre 26 de fevereiro e 14 de março de 2024.

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