Do antropólogo David Graeber e do arqueólogo David Wengrow, acaba de ser lançado no Brasil o Despertar De Tudo: Uma Nova História Da Humanidade, um livro que está dando o que falar, à medida que contesta questões consagradas sobre a história da humanidade, indo na contramão dos mais brilhantes pensadores da atualidade, como o filósofo Francis Fukuyama (As Origens Da Ordem Política), o geógrafo Jared Diamond (O Mundo Até Ontem), o psicolinguista Steve Pinker (Os Anjos Bons da Natureza) e o badalado historiador Yuval Noah Harari (Sapiens), que certamente você já ouviu falar.
Sucintamente, trata-se de um calhamaço com pouco mais de 700 páginas – se somados os extras, elas chegam a 1000 – que propõe uma nova compreensão da Pré-Historia e a Antiguidade. Embasada nos avanços da paleontologia e da arqueologia nas últimas décadas e na crítica indígena à sociedade europeia durante o século XVIII, a obra rejeita a ideia de que “existe diferença entre nós e nossos antepassados muito remotos em termos de inteligência cognitiva e de consciência social e política”.
Da mesma forma, O Despertar De Tudo também se contrapõe as teorias rousseauniama e hobbesiana que limitam nossa evolução a um modelo linear que vai da selvageria à civilização, ou melhor, do forrageamento para a lavoura e, posteriormente, à industrialização. Um princípio baseado na classificação das “sociedades segundo os meios de subsistência (de modo que a agricultura passou a ser vista como uma ruptura fundamental na história da humanidade); na suposição de que, à medida que cresciam, as sociedades inevitavelmente se tornavam mais complexas; e que essa complexidade implica não só maior diferenciação de funções, mas também reorganização em estratos hierárquicos, governados de cima para baixo”.
A bem da verdade, hoje em dia, “há evidências que antes do surgimento da agricultura, as sociedades humanas não se limitavam a pequenos bandos igualitários. Pelo contrário, o mundo dos caçadores-coletores era repleto de experiências sociais arrojadas, parecendo muito mais um variado desfile carnavalesco de formas políticas do que as insípidas abstrações da teoria evolucionária. A agricultura, por outro lado, não determinou o aparecimento da propriedade privada, nem marcou um avanço irreversível rumo à desigualdade. Na verdade, muitas das primeiras comunidades agrícolas eram relativamente isentas de níveis e hierarquias. E, longe de estabelecer sólidas diferenças de classe, um número surpreendente das primeiras cidades do mundo se organizou segundo linhas de claro teor igualitário, que dispensavam governantes autoritários, políticos-guerreiros ambiciosos ou mesmo administradores opressores”.
Uma conjuntura que nos define como “atores políticos autoconscientes”, capazes de criar arranjos conforme as circunstâncias, portanto ao invés de procurar a origem de nossa desigualdade, não deveríamos tentar entender porque ficamos presos a ela? Esta é a reivindicação do livro e a resposta não está na maneira como temos compreendido a nossa história, uma quimera que reporta a um passado edênico, mas como passaremos entendê-la de ora em diante.
O resultado é um enciclopédico volume de informações que, dividido em 12 capítulos, destrói muitos mitos. Exemplificando, as primeiras dinastias reais não surgiram nas planícies centrais da China, a Grécia não foi o berço da democracia, os ianomâmis não são resquícios vivos da Idade da Pedra e “é difícil acreditar que o tipo de conhecimento matemático complexo registrado nos primeiros documentos cuneiformes da Mesopotâmia, ou na disposição dos templos de Chavín, no Peru, surgiu pronto da mente de um escriba ou escultor masculino, como Atena saiu da cabeça de Zeus. Bem mais provável é que represente um conhecimento acumulado em épocas anteriores por meio de práticas concretas como o cálculo aplicado e geométrico usado na tecelagem e no trabalho com contas que era realizado por ‘mulheres’”, colocando por terra a ideia de que somos meras coadjuvantes da evolução humana.
Em suma, O Despertar De Tudo é uma obra envolvente, acessível e, em alguns momentos, até hilária. Também pode ser considerada um tratado sobre a liberdade que se contrapõe ao pensamento teológico que sempre modelou o entendimento da nosso passado e a admissão das descobertas apresentadas não é nem será fácil, pois exigirá da sociedade uma radical transformação de fundamentos e valores.
Nota: Comprei o e-book e recomendo. Além da questão do peso da edição física, ele facilitou minhas pesquisas, por conta do fácil acesso ao dicionário e às pesquisas na internet.