O inglês Geoffrey Braithwaite - médico reformado e viúvo - atravessa o canal da Mancha e dirige-se a Rouen, a terra natal de Gustave Flaubert. A intenção é ver o papagaio embalsamado que serviu de modelo a Flaubert durante a escrita de um dos seus livros. Mas o que é apenas uma viagem transforma-se, lentamente, numa lição maravilhosa e genial sobre o autor de Madame Bovary - o seu talento indiscutível, mas também os seus defeitos, manias, tiques insuportáveis, vaidades e medos -, sobre literatura, sobre o amor (entre Braithwaite e a mulher Helen, que morreu recentemente; entre Flaubert e Louise Colet), sobre o que falha e o que não tem sentido na vida, sobre os segredos que a rodeiam e lhe dão sentido. Tudo para concluir que a vida verdadeira é a vida que vem nos livros. Porque é a única que se pode interrogar...
O Papagaio de Flaubert - Flaubert's parrot
Julian Barnes
Reler Madame Bovary
Uma vez Gustave Flaubert disse que Madame Bovary era ele próprio. Nem poderia ser muito diferente mesmo. E no livro de Julian Barnes, o viúvo Geoffrey Braithwaite, médico inglês aposentado, admirador de Gustave Flaubert, muitas vezes é colocado na pele do próprio autor francês (e não apenas dele). Explica-se: um dia, em visita à França, Geoffrey descobre num museu da Normandia um papagaio amazonense empalhado, que o escritor francês teria tomado emprestado para escrever a novela Um Coração Singelo (efetivamente escrita por Flaubert). Num outro museu, outro papagaio empalhado também passa por ter sido o que serviu ao escritor do século XIX. Qual deles seria o autêntico? Em busca da verdade acerca dessas aves, Geoffrey faz uma viagem tumultuada ao tempo perdido. Â medida que avança em sua investigação, torna-se um verdadeiro prisioneiro no emaranhado dos cenários, personagens e fatos mais relevantes da biografia de Flaubert. História e imaginação se confundem a tal ponto na mente de Geoffrey que, pouco a pouco, a vida de Flaubert e a dele vão formando um todo indivisível. E impõe-se então a seguinte questão: o que é realidade e o que é fantasia no trabalho de um autor? O que temos é que personagens e pessoais reais se misturam, cronologias entram em ação, livros conhecidos são revisitados, críticos de Flaubert são demolidos (algumas lendas a respeito dele também) e a história cresce, caminhando para seu final. Mas a grande dúvida taxidérmica do início somente será esclarecida no último parágrafo. O Papagaio de Flaubert foi o terceiro livro publicado por Barnes (primeiro dele no Brasil) e ganhou prêmios na Inglaterra, França e Estados Unidos justamente por sua originalidade: uma mistura saborosa de biografia (de Gustave Flaubert, logicamente), romance e crítica literária. Ao fim, fiquei até com vontade de ler Madame Bovary novamente. Meses depois, de volta a esta resenha: não reli Madame Bovary, mas Um Coração Singelo (ou Uma Alma Simples, como também pode ser encontrado), que é uma pequena obra-prima de Flaubert. Lê-se a novela em cerca de 2 a 3 horas e fica-se querendo mais. Vale a pena conhecer Felicidade (a personagem principal, uma empregada doméstica) e Lulu (o papagaio amazonense). É Flaubert em grande forma, sem dúvida.
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