“Deus criou o homem porque tinha necessidade de ouvir histórias.” (Página 202)
Pablo Hernando é um famoso arquiteto madrilenho. Certo dia, durante uma viagem de trem para uma conferência em Málaga, uma pequena cidade – Pozonegro – desperta seu interesse a ponto de fazê-lo interromper o trajeto e comprar um velho apartamento onde passa imediatamente a morar. Mas, afinal, o que pode levar uma pessoa a abandonar uma vida organizada e bem sucedida, para começar uma outra num lugar decadente onde não tem ao menos um conhecido?
Publicado em 2022 no Brasil, A Boa Sorte é o décimo sétimo romance de Rose Montero, uma das mais importantes e profícuas escritoras de língua espanhola. Cercada de mistério e suspense, a narrativa gira ao redor de uma personagem que foge de si mesma por desespero e necessidade. Uma situação que tangencia assuntos como medo e culpa, entretanto seu fulcro é a psicopatia e o abuso, no caso, contra crianças, mulheres e minorias desfavorecidas. Aliás, como jornalista de formação, Montero entremeia a ação com uma série de casos policiais verídicos, boa parte envolvendo pais e filhos, que remetem à desmitificação do amor nesses relacionamentos.
Com capítulos curtos e não numerados, o livro também apresenta bem enxertadas citações literárias, mas seu maior atributo é o emprego de uma técnica sofisticada e bastante atual de escrita que se caracteriza pela alternância das vozes narrativas em primeira, segunda e terceira pessoas.
Por sinal, a escritora, ao descrever a fictícia Pozonegro, despreza a pressa e faz da cidade mais uma personagem de uma galeria convincentemente construída em que despontam uma mulher cheia de vida, Raluca, e um doente terminal, Felipe, os novos vizinhos de Pablo.
Resumidamente, este é um romance conduzida por segredos, não há quem não os tenha, e conforme eles são revelados, surge uma outra história, capaz de tornar “o cotidiano algo extraordinário”.
Enfim, será que realmente existe a boa sorte ou ela é apenas uma enganosa questão de perspectiva? Para Raluca, feito um anjo da guarda, ela está sempre a seu lado: “Sempre tive muita sorte, sabe? Que bom eu ser sortuda desse jeito, porque senão, com a vida que tive, não sei o que seria de mim.” (Página 153) 🍀
Até a próxima!