A sociedade aberta e seus inimigos -

    Karl R. Popper

    Ed. Itatiaia
    1974
    421 páginas
    14h 2m
    ISBN-13: 9780415610216
    Português Brasileiro

    Volume 1 - As palavras ríspidas proferidas neste livro acerca de algumas das principais figuras intelectuais da humanidade não são motivadas, quero crer, por um qualquer desejo meu de as diminuir. Nascem antes da minha convicção de que, para que a nossa civilização sobreviva, temos de quebrar o hábito da deferência para com os grandes homens. (…) [Este livro] Esboça algumas das dificuldades que a nossa civilização enfrenta – uma civilização que podia talvez ser definida por almejar a humanidade e a razoabilidade, a igualdade e a liberdade; uma civilização que está ainda na sua infância, por assim dizer, e que continua a crescer apesar do facto de ter sido muitas vezes traída por tantos dos próceres intelectuais da humanidade. O livro tenta mostrar que esta civilização ainda não se recompôs por completo do choque do seu nascimento – a transição da sociedade tribal ou “fechada”, com a sua submissão a forças mágicas, para a “sociedade aberta”, que liberta os poderes críticos do homem. Tenta mostrar que o choque dessa transição é um dos fatores que tornam possível a ascensão desses movimentos reacionários que têm tentado, e continuam a tentar, derrubar a civilização e regressar ao tribalismo. E sugere que aquilo a que hoje chamamos totalitarismo pertence a uma tradição que é tão velha, ou tão nova, quanto a nossa própria civilização. Volume 2 - É tentador determo-nos nas semelhanças entre o marxismo, a esquerda hegeliana, e a sua contraparte fascista. Seria, no entanto, absolutamente injusto passar por cima da diferença que os separa. Embora a sua origem intelectual seja praticamente idêntica não pode haver dúvidas quanto ao impulso humanitarista do marxismo. Para mais, em contraste com os hegelianos de direita, Marx tentou honestamente aplicar métodos racionais aos problemas mais prementes da vida social. O valor desta tentativa não é prejudicado pelo facto de que, como tentarei mostrar, tenha sido em grande parte mal sucedida. A ciência progride por tentativa e erro. Marx tentou, e embora tenha errado nas suas principais doutrinas, não tentou em vão. Abriu e aguçou os nossos olhos de muitas maneiras. É inconcebível um regresso à ciência social pré-marxista. Todos os autores modernos estão em dívida para com Marx, mesmo que não o saibam. Isto é especialmente verdade quanto àqueles que discordam das suas doutrinas, como eu; e admito sem reservas que o meu tratamento de Platão e de Hegel, por exemplo, tem o selo da sua influência.»

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    Filino Carvalho Neto14/04/2016Resenhou um livro
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    Um poderoso ataque à filosofia política de Platão

    Um bom livro pode ser medido pelo impacto que provoca no leitor. Não falo de deleite, de prazer, mas de "porrada", mesmo: aquela leitura que mais parece um golpe na boca do estômago, deixando o leitor desnorteado, surpreso e com um ar de interrogação: "como assim?" "A sociedade aberta e seus inimigos" (volume I) é dessas obras. Trata-se de um torpedo contra o totalitarismo presente na filosofia platônica, que muitos não veem e vários outros teimam em não enxergar. Com uma prosa didática e agradável, Popper disseca o pensamento do ilustre grego sobre a política (centrando suas atenções n'A República) e demonstra que até o "divino Platão" louva atitudes que julgaríamos bastante questionáveis (ou "fascistas", para utilizar um termo em voga). É um livro indicado para não-especialistas em filosofia e, também para quem nunca leu nada de Popper. Mesmo para aqueles já familiarizados com a filosofia e para os poucos que se debruçam sobre a filosofia grega ou o pensamento popperiano, as notas ao fim da obra (que são numerosíssimas, recheadas de informações e que consomem boa parte do livro) são um aprendizado e tanto. Interessante ressaltar que a leitura das notas é dispensável e não influi na compreensão do texto, caso o leitor não queira enfrentá-las. Curioso que uma obra dessa magnitude é muito pouco citada em matérias de cursos como Direito, Filosofia ou Ciência Política. Por que será?

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