Na sala do n° 19 de Wilbraham Crescent, cuja proprietária é uma senhora cega, Sheila Webb, uma estenografa, espera sua cliente. Ali, quatro relógios marcam 16h13, enquanto a mulher encontrará, em pânico, um homem desconhecido, no chão, inerte. Assassinato? Assim começa o envolvente romance policial Os relógios, de Agatha Christie, que conta com o mais famoso personagem da autora: o detetive belga Hercule Poirot. Duas investigações paralelas se entrelaçam ao longo da obra, dando ao livro o suspense e dinâmica inconfundíveis da autora. Uma das investigações, empreendida por Colin Lamb à serviço da inteligência britânica, é narrada em primeira pessoa e ligada à espionagem da Guerra Fria. A outra, central e que dá nome ao livro, diz respeito ao crime cometido na casa de n° 19, e dela participa Poirot. O detetive entra em cena após ser questionado se conseguiria solucionar o caso à distância, sem sequer deixar sua poltrona, usando apenas seu faro e instinto apurados. Os quatro misteriosos relógios parecem indicar pistas importantes e fundamentais para a resolução do caso, mas, em um primeiro momento, incompreensíveis para os investigadores. Método, raciocínio lógico e conhecimento da natureza humana, características marcantes do detetive belga, desta vez serão suficientes? Longe de testemunhas e da cena do crime, Hercule Poirot terá que pôr à prova todas as suas habilidades.
Os Relógios -
Agatha Christie
Cuco!
Esse foi um dos primeiros livros de Agatha Christie que li, ainda aos 11 anos de idade. Sei disso porque, coisa curiosa, tenho a lembrança da casa onde eu morava ao ler o livro, e da qual me mudei antes de completar 12 anos. Contudo a respeito da história em si eu não guardava a menor recordação, além de um inexplicável papagaio que ficava berrando na cena do crime. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir agora, ao finalmente reler Os Relógios, que o tal papagaio era na verdade o cuco... de um relógio! Coisa estranha é a memória da gente... Nessa segunda leitura, achei a trama razoavelmente divertida, embora esteja bem distante dos maiores êxitos da autora. Talvez para acrescentar algum tempero ao enredo um pouco insosso, Agatha inseriu alguns elementos de espionagem em sua história de assassinato. Eu, que amo tanto os romances policiais de Agatha Christie ao ponto de ter lido a maioria duas ou três vezes, confesso que não gosto nem um pouco de suas histórias de espionagem, que considero por demais ingênuas e inverossímeis. Sempre me intrigou muito o fato de uma mente tão ardilosa e maquiavélica para conceber mistérios de assassinato chegar a ser simplória ao elaborar suas tramas de espionagem. Por sorte, em Os Relógios a espionagem é apenas coadjuvante. Achei especialmente interessante encontrarmos aqui um Poirot já bem velhinho e quase inválido, empenhado na leitura dos principais autores de histórias policiais. Isso rendeu um inesperado comentário de Poirot a respeito de Sherlock Holmes e de seu criador, Arthur Conan Doyle: As aventuras de Sherlock Holmes murmurou, com afeto. E então pronunciou só uma palavra, com reverência: Maître! Sherlock Holmes? perguntei. Ah, non, non, nada de Sherlock Holmes! É o autor, Sir Arthur Conan Doyle, a quem eu reverencio. As histórias de Sherlock Holmes são, na verdade, espichadas, cheias de tolices e muito artificiais. Mas a arte de escrever, ah, isso é outra coisa. O prazer da língua e, acima de tudo, a criação desse tipo formidável, que é o Dr. Watson. Ah, isso sim é que é triunfo. Pincei ainda essas duas tiradas, que achei bem legais: Não há nada mais insípido do que a pornografia explícita. As pessoas rígidas sempre cedem ante a lisonja. E viva Agatha Christie! https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2021/02/os-relogios-agatha-christie.html
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