O Sonho de um Homem Ridículo (eBook) -

    Fiodor Dostoiévski

    Antofágica
    2021
    241 páginas
    8h 2m
    ISBN-10: B09L8R94YS
    Português Brasileiro

    Embarque em uma viagem cósmica entre sonho e realidade em um dos mais potentes textos do autor de Crime e Castigo. O protagonista desse livro é ridículo. As pessoas riem dele, e talvez ele risse junto, se não tivesse pena delas, pena porque ele sabe a verdade, e elas, não. Como é duro ser o único a saber da verdade... Envolto por uma profunda melancolia, este homem decide tirar a própria vida, mas adormece ao lado de seu revólver carregado. No limiar entre a consciência e o sonho, o homem é levado do abismo do suicídio para as planícies de um paraíso perdido, no qual é introduzido a uma terra utópica em que a harmonia reina sobre o caos. Escrita em 1877, após o período de trabalhos forçados na Sibéria, essa é uma obra-chave para a literatura de Dostoiévski. Essa curta narrativa fantástica condensa grandes obsessões que atravessam toda o trabalho do autor, sobretudo a oposição entre sentimento e razão, e a contestação à visão científica de mundo, que ele considera autodestrutiva para a humanidade. Esta edição da Antofágica, traduzida diretamente do russo por Lucas Simone, conta com ilustrações de Helena Obersteiner e apresentação do neurocientista e especialista em sonhos Sidarta Ribeiro. Nos posfácios, Cecília Rosas, doutora em Literatura Russa pela USP, tece um panorama literário do conto, e Flávio Vassoler, doutor em Letras pela USP e especialista em Dostoiévski, aprofunda as questões existenciais e religiosas tão flagrantes na obra. Celso Frateschi, diretor de teatro e protagonista do monólogo "O sonho de um homem ridículo", tece um ensaio baseado em sua vivência na pele do personagem, e Helena Obersteiner escreve sobre sua experiência ilustrando a jornada cósmica do autor russo.

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    Alane Sthefany23/03/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O Sonho de Um Homem Ridículo - Fiódor Dostoiévski

    Em “O sonho de um homem ridículo”, o autor retoma o tema numa nova chave, fantástica e utópica. (Cecília Rosas). É narrada pelo próprio homem ridículo. Solitário a ponto de não ter nome, com plena consciência de que é, sempre foi e sempre será ridículo. (Celso Frateschi) "Antes, eu ficava muito aborrecido por parecer ridículo. Não parecia, eu era. (...) A cada ano, crescia e fortalecia-se dentro de mim aquela mesma consciência de meu aspecto ridículo em todos os sentidos. Todos riam de mim o tempo inteiro. Mas nenhum deles sabia e sequer imaginava que, se alguém na Terra reconhecia de fato que eu era ridículo, esse alguém era eu mesmo." Trata-se do indivíduo que, imerso na racionalidade moderna, afastou Deus da própria vida e se vê apartado do mundo e de seus semelhantes, segundo a concepção dostoievskiana. A melancolia, a indiferença e a condição de ridículo lhe trazem profundo sofrimento, intensificado pela aspereza da cidade e pela má convivência com os outros, e o protagonista decide se matar (tirar a sua própria vida insignificante). “O sonho de um homem ridículo” retoma outro de seus personagens famosos: Kírillov, de Os demônios. No mesmo Diário de um Escritor, em 1876, Dostoiévski escrevera que as pessoas de repente veriam que já não têm vida, não têm liberdade de espírito, não têm vontade e individualidade, que alguém roubou tudo delas de uma vez [...] Reinarão o tédio e a angústia: tudo está feito e já não há mais nada a fazer, tudo está aprendido e não há nada mais a aprender. Os suicídios aparecerão em multidões, e não como agora, pelos cantos; as pessoas se juntarão em massa, dando as mãos e exterminando a si mesmas todas de uma vez, aos milhares, de alguma forma nova, descoberta por elas junto com todas as descobertas. Porém, decidido a se matar, o homem ridículo é abordado por uma criança, e, apesar de afugentá-la, sente-se depois atormentado pela situação. (Cecília Rosas). Ao voltar para casa, o personagem apanha da gaveta de sua mesa um revólver carregado, adquirido um mês antes exatamente para a ocasião. No entanto, sua atitude com a menina o perturba e essa perturbação nos aproxima ainda mais dele. Adormece pousando a arma no peito, na altura do coração. Sem perceber a fronteira do sono, continua, em sonhos, a raciocinar sobre os mesmos problemas. (Celso Frateschi). O protagonista adormece e começa a sonhar. (Cecília Rosas). Já no limiar do adormecimento ele aperta o gatilho, mas apesar de ter planejado meter a bala na cabeça, é o coração que ele atinge. Sonha com seu funeral e com seu enterro. É enterrado numa cova profunda. O caixão se abre e ele é transportado por um ser estranho por caminhos desconhecidos que o distanciam da terra onde derramou seu sangue. Ele desejava o nada, por isso havia metido uma bala no seu corpo, mas estava sendo carregado por um ser que não era humano, mas que não deixava de ser. Portanto, ele pensava: há vida além da morte! (Celso Frateschi). Em sonho, o homem ridículo dá cabo de sua intenção, mas não dá o tiro na cabeça, como pretendia, e sim no peito. Depois de morto e enterrado, manifesta sua indignação pelo “absurdo da continuação da existência”, já que sua expectativa era o não ser. "Eu havia esperado pela completa inexistência, e por isso dera um tiro no coração. Mas eis que estava nos braços de um ser obviamente não humano, mas que era, que existia: “Então quer dizer que existe uma vida após a morte!". Quando o personagem é levado para outro planeta. (Cecília Rosas). A velocidade de seu pensamento é delirante, assim como a viagem que realizamos. O homem ridículo descobre um outro sol igual ao nosso e uma outra terra, também igual à nossa. De repente, ele já está nessa outra terra, que o recebe carinhosamente. Reconhece a natureza e os homens que trazem em seus rostos a inteligência e a sabedoria. Conclui ser o mesmo paraíso em que viveram em harmonia nossos antepassados. Num relato vertiginoso, o autor nos mostra como o átomo da mentira penetrou em nossos corações e como gostamos disso. Surgem a propriedade e a briga “pelo meu e pelo seu”. "Começou uma luta pela divisão, pelo isolamento, pela individualidade, pelo meu e pelo seu." Mais uma vez aparece diante de nosso homem o mundo dividido e desigual, a escravidão e a servidão voluntária, onde os mais fracos se juntam aos mais fortes, desde que estes oprimam os que são mais fracos que aqueles. Mas nosso herói proclama ser o único culpado por perverter essa gente e esse planeta. "Só sei que o motivo do pecado original fui eu. Como uma triquina nojenta, como um átomo de peste, que contamina nações inteiras, também eu contaminei, comigo mesmo, toda aquela terra feliz e, até minha chegada, sem pecado. Eles aprenderam a mentir e amaram a mentira " "[...] tudo aquilo havia sido feito por mim, somente por mim, que eu lhes havia trazido a depravação, a contaminação e a mentira!" Deseja ser crucificado e até os ensina a construir uma cruz, mas eles apenas riem e dizem que ele é um maluco e que devem prendê-lo. Assim, num curto espaço de tempo, os dois planetas se assemelham em suas dores e em suas misérias. (Celso Frateschi). O narrador por fim tenta se sacrificar em nome da redenção de todos — pede inclusive para ser crucificado —, mas só consegue retornar ao que era no começo do conto: objeto de riso geral. (Cecília Rosas). Ele procura oferecer-se em sacrifício, mas as pessoas se limitam a rir dele. Resolve mais uma vez morrer, mas acorda de seu sonho e, ao acordar, percebe que aquela pobre menina que ele ofendeu aos berros apontava para uma outra possibilidade de vida. Decide continuar procurando, “E caminharei! E caminharei!”. (Celso Frateschi). Ao acordar, o protagonista está completamente mudado. Ele afasta de si o revólver carregado e decide dedicar a vida à pregação da verdade vista no sonho. O que temos aí é mais um dos grandes temas dostoievskianos: o “louco sábio”, que, apesar de ridicularizado pelo mundo, segue sendo o único capaz de dizer a verdade. Sua condição, no entanto, não lhe provoca raiva pelos que o ridicularizam, mas amor. Desta forma, o conto tem um encerramento extático, no qual o protagonista se sente enfim imbuído de uma missão, de uma verdade e de um sentido que lhe oriente a vida. Convertido em profeta, ele agora pretende espalhar sua palavra. (Cecília Rosas). [...] O Sonho de Um Homem Ridículo, trata-se, no conto, do mundo ideal, regido pelo amor, visto inicialmente pelo homem ridículo em seu sonho. O conhecimento deste mundo lhe restitui a vontade de viver, dá a ele a visão da verdade e o transforma. (Cecília Rosas). A trajetória do personagem o leva dos círculos mais infernais do suicídio a uma descoberta espiritual que supera o niilismo e religa o homem ridículo àquilo que ele desvela como o sentido último e primeiro da vida: a transcendência e a eternidade, a superação do ego e a comunhão, Deus e a continuidade da vida após a morte. (Flávio Ricardo Vassoler). Acreditar que o mundo pode ser acolhedor, justo e verdadeiro seria ingenuidade juvenil ou sabedoria ancestral que se perdeu? Uma pessoa é ridícula se acredita na vitória do bem sobre o mal? O mundo do deus dinheiro é tudo que podemos almejar nesta existência? Por que os adultos se esquecem de como é ser criança? Qual é a trajetória humana, qual é o nosso destino? Escrito em 1877, “O sonho de um homem ridículo” continua tão atual quanto nossas misérias. (Sidarta Ribeiro). Talvez, mais do nunca, necessitemos de um projeto ridículo de nos entendermos como um todo. Talvez ainda sejamos ridículos o suficiente para crer em algumas criações da humanidade como a ética e a estética. Talvez a beleza, mesmo que ridícula, ainda possua algum sentido. Quem sabe as coisas são como são porque as forjamos assim e não porque são inevitáveis e por isso valha a pena o ridículo de tentar transformá-las? (Celso Frateschi). Trechos Preferidos ✍🏻📚❤️ Parecia-me claro que, se eu era uma pessoa, e ainda não era um nada, e até então não tinha me tornado um nada, então eu estava vivo e, por conseguinte, podia sofrer, irritar-me e sentir vergonha dos meus atos. Que assim fosse. Mas, se eu me matasse dali a duas horas, por exemplo, que me importaria a menina e que teria eu então a ver com a vergonha e com tudo no mundo? Eu me tornaria um nada, um nada absoluto. E será que a consciência de que logo mais eu deixaria de existir completamente e de que, portanto, nada existiria, não poderia ter a menor influência nem no sentimento de pena da menina, nem no sentimento de vergonha depois do meu ato vil? . [...] eu me mataria com um tiro e não haveria mais mundo, pelo menos para mim. Isso sem falar que, talvez, realmente não houvesse nada para ninguém depois de mim, e o mundo todo, logo que a minha consciência se extinguisse, haveria de extinguir-se imediatamente como um espectro, como um atributo somente de minha consciência, e seria abolido, pois, talvez, o mundo todo e todas essas pessoas fossem apenas eu mesmo. Lembro que, sentado e refletindo, eu dava a todos esses novos problemas, que se aglomeravam uns sobre os outros, uma direção até completamente diferente e inventava coisas já completamente novas. Por exemplo, de repente me ocorreu a estranha reflexão de que, se eu tivesse vivido antes na Lua ou em Marte, e tivesse cometido lá algum ato dos mais indecentes e infames que se pudessem imaginar, e fosse lá ultrajado e desonrado por causa dele, de um modo que se pode sentir e imaginar talvez somente às vezes num sonho, num pesadelo, e se, vendo-me depois na Terra, eu continuasse a ter consciência daquilo que eu havia feito no outro planeta e, além disso, soubesse que não voltaria nunca para lá, de jeito nenhum — então, ao olhar da Terra para a Lua, tudo daria na mesma para mim ou não? Eu sentiria vergonha por esse ato ou não? . Os sonhos, como se sabe, são uma coisa muitíssimo estranha: um aparece com nitidez horripilante, com um nível de detalhamento e minúcia digno de um joalheiro, e o outro você passa por cima de tudo, sem perceber, até mesmo do espaço e do tempo. Quem governa os sonhos, aparentemente, não é a razão, e sim o desejo, não é cabeça, e sim o coração, e, no entanto, que coisas engenhosíssimas minha razão não realizava durante um sonho! Entretanto, acontecem com ela, em sonho, coisas totalmente inconcebíveis. Meu irmão, por exemplo, morreu cinco anos atrás. Às vezes, sonho com ele: ele participa dos meus afazeres, ficamos muito entretidos, e, no entanto, ao longo de todo o sonho, eu sei e lembro perfeitamente que meu irmão morreu e está enterrado. Como é que eu não fico admirado que, mesmo morto, ele esteja ainda assim ali, ao meu lado, cuidando dos afazeres comigo? (...) Eles me provocam agora, dizendo que, afinal, foi só um sonho. Mas por acaso não dá na mesma se foi um sonho ou não, se esse sonho me anunciou a Verdade? Afinal, uma vez que você descobriu e viu a verdade, você sabe que ela é a verdade, e não há e nem pode haver nenhuma outra, seja dormindo ou na vida. Pois que seja um sonho, que seja, mas esta vida, que vocês tanto glorificam — eu queria extingui-la com o suicídio, e o meu sonho, o meu sonho, oh, ele me anunciou uma vida nova, grandiosa, renovada e forte! [...] fui surpreendido pela ideia de que tinha morrido, tinha morrido mesmo, sabia disso e não tinha dúvidas, não via nada e não me movia e, entretanto, sentia e refletia. Mas eu logo me conformei com aquilo e, como é costume nos sonhos, aceitei a realidade sem discussão. Eu jazia ali e, estranhamente, não esperava por nada, aceitando, sem discussão, que um morto não tem pelo que esperar. [...] você está se vingando de mim, por meu irrazoável suicídio, através do horror e do absurdo da continuidade da existência. . Eu amo, eu posso amar apenas aquela Terra que eu deixei, na qual ficaram os respingos do meu sangue quando eu, ingrato, extingui minha vida com um tiro em meu coração. (...) Na nossa Terra, podemos amar verdadeiramente apenas com o tormento e só através do tormento! De outro modo não sabemos amar e não conhecemos outro amor. Quero o tormento para amar. . Nunca vi, em nossa Terra, tamanha beleza no ser humano. Talvez apenas em nossas crianças, em seus primeiríssimos anos de idade, seja possível encontrar um reflexo distante, ainda que fraco, daquela beleza. (...) no mesmo instante, ao primeiro olhar para o rosto deles, compreendi tudo, tudo! Aquela era a Terra que não fora maculada pelo pecado original, nela viviam humanos que não pecaram. (...) compreendi que o conhecimento deles era repleto e alimentado por percepções diferentes das nossas aqui na Terra e que suas aspirações também eram completamente diferentes. Eles não desejavam nada e estavam tranquilos, não aspiravam ao conhecimento da vida assim como aspiramos a tomar conhecimento dela, porque a vida deles era repleta. Mas seu conhecimento era mais profundo e mais elevado que a nossa ciência; pois a nossa ciência busca explicar o que é a vida, ela mesma aspira a tomar conhecimento dela para ensinar os outros a viver. Eles se alegravam com as crianças que surgiam em seu meio como novos participantes de sua bem-aventurança. Entre eles, não havia brigas e não havia ciúme, e nem mesmo entendiam o que aquilo significava. Seus filhos eram filhos de todos, porque todos constituíam uma só família. [...] dava a impressão de que viviam a vida inteira unicamente para admirar uns aos outros. Era uma espécie de paixão completa e generalizada uns pelos outros. [...] eu com frequência não conseguia olhar, em nossa Terra, para o Sol poente sem lágrimas… Que, em meu ódio pelos seres humanos da nossa Terra, encerrava-se sempre uma angústia: por que é que eu não podia odiá-los sem amá-los, por que não podia não perdoá-los. [...] quando eles olhavam para mim, com o olhar afetuoso e impregnado de amor, quando eu sentia que, na presença deles, meu coração tornava-se tão inocente e sincero como o deles, (...) Acontece que eu… corrompi todos eles! Sim, sim, eu acabei corrompendo todos eles! Só sei que o motivo do pecado original fui eu. Como uma triquina nojenta, como um átomo de peste, que contamina nações inteiras, também eu contaminei, comigo mesmo, toda aquela terra feliz e, até minha chegada, sem pecado. Eles aprenderam a mentir e amaram a mentira Surgiram alianças, mas, dessa vez, umas contra as outras. Passaram a torturar os animais, e os animais afastaram-se deles, em direção às florestas, e tornaram-se seus inimigos. Começou uma luta pela divisão, pelo isolamento, pela individualidade, pelo meu e pelo seu. Passaram a falar em línguas diferentes. Conheceram o pesar e amaram o pesar, ansiavam pelo tormento e diziam que a Verdade só é alcançada através do tormento Quando se tornaram maus, começaram a falar de fraternidade e de humanidade e compreenderam essas ideias. Quando se tornaram criminosos, adquiriram a justiça e elaboraram para si códigos inteiros para mantê-la, e, para a observância dos códigos, colocaram uma guilhotina. [...] se ao menos pudesse acontecer de voltarem àquele estado inocente e feliz que haviam perdido, e se de repente alguém o mostrasse a eles de novo e perguntasse: “Querem voltar a ele?”, certamente teriam recusado. Eles me respondiam: “Podemos ser mentirosos, maus e injustos, nós sabemos disso e choramos por isso, e nós mesmos nos torturamos por causa disso e nos maltratamos e punimos talvez até mais que o Juiz misericordioso que nos julgará e cujo nome não conhecemos. [...] cada um passou a amar a si mesmo mais que todos os outros Cada um tornou-se tão zeloso de sua individualidade, que apenas tentava, com todas as forças, rebaixá-la e depreciá-la nos outros, e nisso empenhavam sua vida. Surgiu a escravidão, surgiu até a escravidão voluntária: os fracos submetiam-se de bom grado aos mais fortes, só para que aqueles os ajudassem a oprimir os ainda mais fracos que eles próprios. [...] a sabedoria e o sentimento de autopreservação fariam finalmente o ser humano reunir-se numa sociedade racional e harmoniosa, e por isso, para acelerar as coisas, os “sábios” tentaram exterminar, o quanto antes, todos os “não sábios” e todos aqueles que não entendessem sua ideia, para que não atrapalhassem seu triunfo. Finalmente, esses humanos extenuaram-se numa labuta sem sentido, e em seus rostos surgiu o sofrimento [...] tudo aquilo havia sido feito por mim, somente por mim, que eu lhes havia trazido a depravação, a contaminação e a mentira! [...] afinal, caminham em direção à mesmíssima coisa, pelo menos todos aspiram à mesmíssima coisa, do sábio até o último dos bandidos, só que por caminhos diferentes. Essa é uma verdade antiga, mas o que é novo aqui é o seguinte: eu nem posso me perder muito. Porque eu vi a verdade, vi e sei que os seres humanos podem ser belos e felizes, sem perder a capacidade de viver na Terra. Eu não quero e não posso acreditar que o mal seja o estado normal dos seres humanos. Mas é só dessa minha crença que todos riem. Mas como eu poderia não acreditar: eu vi a verdade — não é que a inventei com a mente, eu a vi, eu vi, e sua imagem viva preencheu minha alma para sempre. Eu a vi numa completude tão plena, que não posso crer que ela não possa existir para os seres humanos. [...] é isso que os zombeteiros não compreendem: “Teve um sonho”, dizem eles, “um delírio, uma alucinação”. Ora essa! Será que é tão complicado?! E eles são tão orgulhosos! Um sonho? Que é um sonho? E a nossa vida não é um sonho? Digo mais: pois bem, que isso nunca se cumpra e que o paraíso não exista (pois isso eu entendo!) — mesmo assim, hei de pregar. E, entretanto, é simples: num só dia, numa só hora, tudo logo se arranjaria! O principal é amar os outros como a si mesmo, isso é que é o principal, e só isso, não precisa de rigorosamente mais nada: imediatamente você descobre como se arranjar. E, entretanto, isso é só uma velha verdade que foi repetida e lida um bilhão de vezes, mas que não se assentou! (...) Se todos ao menos quiserem, no mesmo instante tudo há de arranjar-se.

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