A literatura competente não tem barreiras nem limites para acontecer, além de subverter regras pré-estabelecidas. E aqui temos uma joia que se encaixa perfeitamente nessa linha de definição, pois O olho mais azul é uma rara peça de arte.
Toni Morrison é uma figura singular. Primeira e única mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura, pelo menos até o momento em que esta resenha vem ao mundo, Morrison, que infelizmente faleceu em 2019, foi a intelectual estadunidense dos últimos anos. E fica fácil perceber o porquê depois de ler esse livro.
É importante contextualizar o momento de lançamento de O olho mais azul. O ano é 1970. Os Estados Unidos tinham perdido, apenas dois anos antes, o grande ícone do movimento pelos direitos civis, o doutor Martin Luther King Jr.. É nesse contexto em mente, de um país que àquela época estava fervilhando em suas desigualdades sócio-raciais, que o livro cresce, pois ao olhar para trás e contar uma história que se desenrola logo após o fim da Grande Depressão, Morrison faz uma sólida reflexão sobre a condição dos negros estadunidenses.
Em O olho mais azul, Toni Morrison oferece a seus leitores uma minuciosa investigação dessa experiência negra na América, em particular da mulher negra e pobre nos Estados Unidos. Com uma narrativa fragmentada extremamente oral e, em momentos chaves, visceral, a autora desnuda a invisibilidade que persiste na mais covarde das violências, o racismo. Não há espaço para inocentes no mundo, irá concluir Morrison. No entanto, é na resistência e dentro da representação literária que ela irá dar voz a experiências e identidades que, antes dela, pertenciam a uma posição marginalizada dentro da literatura.
Durante a leitura, em um ponto chave do romance, eu tive um choque. E nesse choque tive certeza de que eu não estava lendo um livro qualquer. É nesse momento, também, que comecei a fazer associações com outras artes, no caso o cinema, ao comparar o que lia com cenas de dois filmes importantíssimos sobre o tema racismo: No calor da noite e Mississipi em chamas. Ali, nesse ponto, o jogo de espelhos de Morrison é magistral.
E há uma personagem inesquecível, claro. É através de Pecola, personagem chave do romance, que mora o calcanhar de Aquiles dos leitores. Ela é apenas uma menina negra que deseja olhos azuis, mas por trás desse desejo há muita dor e sofrimento. Ela deseja olhos azuis porque sofre discriminação de raça, gênero e classe. Deseja olhos azuis porque é abusada por negros e brancos, e sofre dos primeiros um abuso físico e psicológico (vejam que escolha dolorosamente interessante!!). É do ódio, portanto, que se constrói a sua personalidade. É no estigma que carrega, de não compreender a complexa realidade e valores de uma ideologia dominante, que Pecola sofre. E nós sofremos juntos através desse sentimento que cabe tão bem à literatura chamado empatia, tão em falta na sociedade ontem, hoje e sempre.
Leia, releia, reflita, discuta e indique O olho mais azul. E isso se torna obrigatório se você está situado, quer você queira ou não, no lado opressor da nossa sociedade - como é o meu caso. Somente assim é possível aproveitar ao máximo o livro, pois o mundo - em especial o mundo branco - não terá a oportunidade de experimentar uma obra dessa magnitude outra vez. Ou talvez não seja preciso: livros como esse são definitivos, sobrevivem às imperfeições do tempo e recusam imitações mal formuladas.