Nessa lógica, se o pedido não se realizar, a culpa é transferida ao crente, que não orou direito, não teve fé o bastante ou não fez oferta de sacrifício suficientes para receber a graça de volta. A fé é um dos motores da humanidade. Da fé religiosa até a fé no valor do dinheiro, é ela que guia destinos, guerras, amores e histórias. A capacidade de acreditar em conceitos não-tangíveis é considerada por muitos especialistas um ponto de diferenciação nosso em relação aos demais animais. Até que ponto, porém, pode a fé religiosa interferir em aspectos sociais que envolvem tantos que não comungam das mesmas crenças? Escrito pela jornalista Andrea Dip e publicado em 2018, Em nome de quem? é um livro-reportagem que tem como objetivo investigar as relações das Igrejas Evangélicas com o poder no Brasil, como aconteceu essa escalada e como ela se sustenta em suas bases. Entender como evangélicos pentecostais e neopentecostais chegaram ao poder é fundamental para compreendermos a política brasileira e, em especial, os últimos quatro anos de desgraça que vivemos. Ter sido publicado antes do início do governo Bolsonaro poderia ser algo que falasse contra a obra, porém é exatamente a capacidade de entregar um retrato tão claro, rico e nítido sobre os fatores que levaram a direita conservadora ao poder que torna esse um livro tão necessário no trabalho de destrinchar os anos de pavor que o sucederam. De uma forma absolutamente clara e embasada, o livro explica os fenômenos da Teoria da Prosperidade e da Teoria do Domínio, largamente utilizados pelas principais denominações pentecostais do país, e que explicam muito da ideia de lavagem cerebral e seita que essas mesmas igrejas demonstram. Além disso, Em nome de quem? traz informações importantes para entendermos como a esquerda brasileira perdeu o contato com as camadas mais pobres e vulneráveis da população e como muitas das denominações, que hoje elegem congressistas e governadores, ocuparam espaços importantes dentro da sociedade, entregando sentido de pertencimento, entretenimento e estrutura comunitária. Não nos cabe um julgamento sobre a fé particular de cada um, mas quando essa fé tem como objetivo tomar o poder, ameaçar e destruir pensamentos diferentes de suas doutrinas, nos cabe a luta por igualdade e justiça. É direito de cada cidadão expressar sua fé, nunca exigir que o outro viva sob suas crenças e percepções de verdade. Livro essencial para que não sigamos repetindo os mesmos erros e finalmente possamos caminhar para uma sociedade plural, igualitária e com um Estado efetivamente laico.



