Primeira novela do autor palestino Ghassan Kanafani — publicada originalmente em árabe em 1963 —, Homens ao sol conta a história de três homens, três palestinos afetados pela Nakba (catástrofe) de 1948 — quando centenas de milhares de palestinos foram mortos ou expropriados de suas terras, casas, bens, e obrigados a buscar refúgio em terras dentro da Palestina e fora dela. Esses personagens convergem num mesmo lugar com uma mesma intenção: buscar uma vida melhor longe da terra ocupada. Os três estão tentando atravessar o Iraque e chegar ao Kuwait, encontrar ali trabalho, enviar dinheiro para a família, inventar uma nova vida. Ghassan Kanafani (1936–1972) é considerado o pioneiro da literatura de resistência palestina e influenciou muitos escritores árabes de sua época e desde então. Além de ativista político e figura central na construção da resistência palestina à ocupação israelense e ao projeto sionista, Kanafani é um grande escritor e seu talento literário confere à sua obra um caráter universal
Homens ao sol -
Ghassan Kanafani
🇵🇸 “A Luta dos Palestinianos no Deserto Sufocante de Kanafani” 🇵🇸
“Deixe o assunto de honra para outra hora. As coisas andam melhor quando um homem não jura pela sua honra”. O romance “Homens ao Sol” representa um simbolismo realista por meio do qual Ghassan Kanafani retrata o sofrimento do povo palestiniano sob a ótica da injustiça, da amargura e da perda de identidade que esse povo sofreu após as potências coloniais o atacarem e o privarem do direito a uma vida digna. Considerado uma pessoa de criatividade incomparável, Ghassan Kanafani nasceu na cidade de Acre em 1936 e viveu na cidade de Jaffa até ser desalojado em 1948, como resultado das operações militares dos grupos sionistas armados que ocuparam a sua terra natal deslocando seus habitantes para o exílio. Depois disso, ele viveu por um curto período no sul do Líbano, antes de se mudar com sua família para Damasco. Sua vida durante esse período foi caracterizada por extrema dificuldade e dureza, semelhante à da maioria dos refugiados palestinianos. Uma trajetória de vida digna de um romance épico, Kanafani foi uma inspiração para árabes e palestinos. E segue vivo na memória de seu povo até hoje. Ao longo de sua carreira, publicou livros e escreveu centenas de artigos e estudos sobre cultura, política e a luta do povo palestino. Também recebeu prêmios literários, a exemplo do prêmio “Amigos do Livro no Líbano” em 1966. Foi assassinado em Beirute, capital libanesa, na manhã de sábado, 8 de julho de 1972, quando uma bomba explodiu em seu carro, matando-o junto com a sua sobrinha, Lamis, que o acompanhava. Suas obras literárias, escritas entre 1956 e 1972, continuam a receber atenção até hoje. Esse romance foi escrito por Kanafani em 1962, enquanto se escondia da polícia, por não possuir documentos oficiais de residência no Líbano, em um período de intensa repressão e perseguição política após uma tentativa frustrada de golpe contra o governo libanês. Foi publicado em Beirute em 1963. Ele é considerado uma das obras literárias mais proeminentes que abordam questões de identidade e nacionalismo palestinos. O romance gira em torno de três homens palestinos que decidem viajar pelo deserto do Iraque até o Kuwait em busca de uma nova vida após serem ‘expulsos’ de sua terra natal. Por meio desses personagens, o autor personifica as tragédias e as lutas dos palestinianos, e sua ambição de alcançar seus objetivos, apesar das duras condições que enfrentam. É uma história que personifica a luta existencial de um segmento do povo palestino e seu significado na busca por esperança em tempos de crise. O romance aborda múltiplas questões relacionadas à migração forçada, à vida no exílio e à luta por identidade. É muito interessante saber que esses temas refletem também as experiências pessoais do próprio autor, que viveu a Nakba do povo palestino. Acredito que por isso sentimos de maneira tão vívida e voraz a verdade nas letras de Kanafani: é um relato de uma realidade na qual ele estava profundamente inserido. Enquanto lia essa história foi-me impossível pular uma única linha sem encontrar um símbolo em cada palavra, referindo-se às condições dos palestinos após a Nakba. O romancista refletiu a questão por meio dos seus heroicos personagens, cada um dos quais simbolizava uma figura específica de seu povo. O romance distingue-se pela diversidade de seus personagens, cada um carregando o peso de diferentes experiências e sonhos que refletem a realidade dos palestinos no exílio. Os personagens principais do romance são Asaad, Marwan e Abdullah, e cada um deles tem sua própria narrativa que destaca os desafios internos e externos que enfrentam. ‘Asaad’ representa intensamente aquele que busca a esperança ao mesmo tempo em que personifica a fuga de uma realidade amarga. Ao fugir de sua aldeia na tentativa de alcançar um futuro melhor o torna um símbolo para a jovem geração palestina que anseia por liberdade. Entretanto, sua jornada demonstra como a perseverança pode ter e ser um sentimento custoso. ‘Marwan’ personifica a tensão entre a tradição e a mudança trazendo uma nova realidade para a nação invadida pelos sionistas. Ele é filho de um povo que carrega o fardo das memórias do passado e dos estereótipos que lhe foram impostos. Marwan personifica a expressão do fracasso e da frustração, tornando-o mais suscetível à mudança. ‘Abdullah’ é o personagem mais maduro do romance, talvez por isso para mim ele personifique o fardo da liderança e da orientação. Ele vê a morte como uma realidade possível e representa a força motriz da mudança na comunidade de refugiados. Ele tenta ser uma fonte de sabedoria para seus companheiros, mas também expressa dor e arrependimento pelas circunstâncias que os levaram a esse estado. Magistralmente, Kanafani descreve as lutas psicológicas de cada personagem para refletirem o sofrimento de toda uma sociedade. O conflito entre almas que anseiam por liberdade e a persistência de uma realidade dolorosa criou uma dinâmica poderosa que influenciou todo o curso da narrativa. A cada decisão que qualquer um desses homens tomava, uma consequência viria à tona. Era inescapável fugir de um destino fatídico. Essa constatação deixava-me profundamente melancólico. A habilidade narrativa do autor é tão meticulosa que ao lermos as interações entre os personagens imediatamente notamos que refletem as realidades sociais e políticas daquele espaço geográfico, onde a esperança interage com a frustração e o fracasso confronta as ambições do momento. Essas dinâmicas levam a uma maior complexidade nas relações interpessoais, dando vida à história. Os personagens dessa emblemática narrativa não são apenas personagens passageiros, mas sim a personificação de histórias de vida e testemunhos humanos que enriquecem o romance e refletem as experiências coletivas do povo palestino na diáspora. Atento a realidade a sua volta e intelectualmente politizado, Kanafani explora uma série de questões sensíveis e complexas que refletem a realidade do povo palestino na diáspora. Este romance não é apenas uma narrativa de eventos; é uma reflexão profunda sobre o sofrimento e as esperanças do seu povo, destacando tópicos como a ‘Questão da Identidade’, buscando explorar o impacto da ocupação e do deslocamento na identidade palestina discutindo e refletindo como preservar sua herança e identidade em condições adversas. Também aborda a questão do exílio e refúgio focando fortemente no sofrimento dos refugiados palestinianos e em como a perda de sua terra natal impacta seu bem-estar psicológico e sua vida cotidiana. Os protagonistas do romance passam por experiências dolorosas que revelam seus conflitos internos mais atrozes na psique humana. Kanafani também reflete como os heróis se esforçam para melhorar suas condições de vida, pintando um quadro realista das dificuldades que enfrentam em um novo mundo na angustiante luta pela sobrevivência longe de ‘sua casa’ ao mesmo tempo em que o autor nos fala de esperança e desespero apresentando-nos um conjunto contrastante desses sentimentos, à medida que os personagens oscilam entre o desejo de realizar seus sonhos e a dolorosa realidade enfrentada pelo povo palestino, provocando-nos a uma reflexão mais profunda e incômoda. O romance apresenta uma riqueza de símbolos para ilustrar conceitos profundos e transmitir mensagens complexas. Para mim, o maior deles é o ‘Deserto’. O deserto sufocante de Kanafani que metaforiza a luta dos palestinianos que enfrentam nessa longa jornada de caminhada o isolamento e as muitas dificuldades que regiões como essas apresentam, para conquistar a tão almejada liberdade. A edição que tenho comigo tem pouco mais de cem páginas, sete capítulos curtos, porém, extremamente importantes, não existe uma ‘vírgula’ fora do lugar, tudo está escrito em prol da história. Não há palavras ‘jogadas’ ao vento. O narrador é onisciente possuindo informações abrangentes sobre os personagens e os eventos que permeiam suas vidas a partir das decisões que tomaram para definir seus destinos. O uso desse artifício me permitiu sentir empatia pelos personagens porque pude compreender suas experiências vividas. Foi muito interessante que a história começou a jornada com um único ponto de partida tornando-a mais complexa à medida que os eventos progrediam. Esse tipo de estrutura narrativa conduz a história para um suspense e tensão crescentes me mantendo envolvido até o desfecho do arco dramático, onde conhecemos o final da vida desses três palestinos. Eu torcia fervorosamente por eles. Torcia desesperadamente para o motorista do caminhão pipa (onde os homens estavam escondidos) chegar a tempo de libertá-los. O desfecho vocês só irão saber lendo esse romance incrível da literatura árabe. Esse foi o primeiro romance que li de Kanafani e fui engolido pela pintura de suas palavras, por sua narrativa de sugestão e simbolismo. À medida que passava por entre suas frases e sentenças, eu inalava, via, ouvia e tocava os aromas, sons e cores que ele queria me transmitir. Meu coração vibrava por cada parágrafo tão firmemente entrelaçado e condensado com maestria que senti testemunhar um longo poema em prosa. Kanafani construiu seu simbolismo sobre opostos e paradoxos, surpreendendo-me com um estilo artístico único. O sol, que concede calor e energia, torna-se o inferno, um instrumento de terror, tormento e morte. As pombas, que simbolizam a paz, tornam-se negras, agourentas e ameaçadoras. Os homens, sob o sol da desnudação, tornam-se injustamente impedidos de apreciar as belezas da vida. E a mim, enquanto ser humano que acredita que esse planeta é de todos nós torno-me cada vez mais antifascista. 🇵🇸 Palestina Livre ontem, hoje e amanhã. Para Sempre! 🇵🇸
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