E este mundo se chamava Lee Harvey Oswald. Considerado por muitos um Great American Novel (um romance que mordazmente faz um retrato de certa época dos Estados Unidos), a Libra do título se refere ao signo de Lee Harvey Oswald, o suposto algoz de John F. Kennedy.
Posso me considerar um leitor atípico, dado ao fato que sou obcecado pelo assassinato dos Kennedys (por mais mórbido que isso soe), - aqui, Don DeLillo monta dois núcleos, o primeiro formado por ex-funcionários da inteligência que, envergonhados com o desastre da Baía Dos Porcos, somado à morosidade de um presidente um tanto diplomático, percebem que apenas uma tentativa de assassinato (ou um assassinato em si?) pode fazê-los achar pretexto para invadir Cuba; paralelamente, acompanhamos Lee, desde sua carreira como Fuzileiro, sua deserção para a União Soviética e seu regresso aos EUA, já casado e munido de intenções turvas, incógnitas.
E bota incógnito nisso. Os escritores pós modernos (e, em especial, DeLillo e Pynchon) tem essa habilidade de extrapolar o corporativismo; chega uma hora que não sabemos mais a índole de certas pessoas, muito menos como elas chegaram na história, uma cacofonia que não demora a se tornar uma polifonia; são um milhão de vieses de diálogos, cada núcleo tendo uma característica (estas que, em miríades, perdemos umas nas outras); não sabemos quem-está-do-lado-de-quem, muito menos se há um lado definido; e, o principal ponto de história, em que lado Oswald está.
Pois há certos momentos que tenho a nítida impressão que DeLillo fez um personagem incógnito, donde não sabemos o fronteiriço entre sua autonomia e o quanto foi manipulado; é como se ficássemos no embate de até quanto Lee tomava as rédeas do que acontecia, até quanto fora enganado.
Tal como em Submundo, a escrita de DeLillo mistura onisciência da terceira pessoa com fluxo de consciência, às vezes, por um só parágrafo de diferença, havendo uma intercalação de núcleos, indo do passado ao futuro de uma só vez (e, sendo bem sincero, por mais tenha adorado os núcleos de Oswald e de seu algoz, Jack Ruby, os núcleos dos agentes dissidentes da CIA foram chatíssimos).
De qualquer maneira, a escrita de DeLillo é um bálsamo, - possui pleno poder narrativo, esmiuçando a paranoia e a efervescência estadunidense na idiossincrasia de seus personagens. Terminado o livro, fica cada vez mais claro seu subtom quase sociológico; escolhendo um só fato e o explicitando, mostrando como moldara toda uma época.
Recomendadíssimo. O capítulo *22 de Novembro*, que se acompanha os acontecimentos do dia do assassinato, é um dos melhores capítulos de livro da literatura estadunidense.