The how I can't recall
But I'm staring at what once was the wall
Separating east and west
Now they meet amidst the broad daylight...
[]
It's hard I must confess
I'm banking on the rest to clear away
Cause we have spoken everything
Everything short of I love...
The Fray Hundred
A vida é o dom mais difícil de ser manuseado pelas mãos do homem. Viver é uma tarefa difícil onde muitos desistem cedo, alguns a encaram como uma prisão, e vários outros fazem dela um laboratório para as mais diversas experiências, sem se preocupar com conseqüências e punições. Mas, são poucos os que fazem da vida um momento de encantamento, e ainda menos são os que vagueiam por uma vida sem sentido e encontram um momento de epifania capaz de transformar sua existência de um modo cabalístico e sem retorno. Oscar Drái foi um dos pouquíssimos felizardos que encontrou a sua epifania, e ela veio transformada numa figura que entraria em sua vida de uma forma avassaladora e eterna. Oscar encontrou-se com Marina.
Marina é a personagem feminina mais singela dos livros de Zafón. Talvez seja por isso, que ao decorrer da (infelizmente) curta narrativa, nos apaixonamos por essa garota tão loucamente como Oscar fez. Marina representa para Oscar uma chance de colorir a vida de uma forma modigliana, uma possibilidade de dar a sua vida algo que ele nunca viu, algo que pudesse se opor as sombras lançadas em vida miserável, por uma vida metódica e sem brilho, por uma sociedade inescrupulosa e por uma Barcelona gótica, que mais uma vez é perfeitamente descrita por Zafón.
Mantendo a tradição de seus livros, Zafón cria um mistério principal que deve ser elucidado em sua narrativa. O segredo perdido que remonta a vida de Mijail Kolvenik é sem sombra de dúvidas o mais macabro dos livros de Zafón. A tensão e o perigo de morte que rodam Oscar e Marina deixam o livro ainda mais interessante, e a cada resposta encontrada, o mistério vai ganhando contornos sobrenaturais. É possível ir tentando montar o quebra cabeça, mas é praticamente impossível conseguir desvendar todos os segredos e todas as intenções que permeiam o livro, sem a explicação que nos é transmitida pela própria narrativa.
E no momento em que as histórias se cruzam e os segredos são finalmente revelados, os questionamentos que pairam sobre a nossa cabeça são longos e pesados. As motivações de Zafón na tentativa de explicar o conceito de morte são de uma beleza estonteante e poucas vezes vista em qualquer que seja o gênero. A beleza gótica que paira nos capítulos finais do livro, nos transporta para um limbo onde retomamos a pergunta sobre o que é realmente a vida, e as promessas e possibilidades elencadas pelo livro dão o toque final que o livro precisa para ser perfeito e apaixonante.
Assim, Zafón constrói mais um livro espetacular, que mostra o porquê de sua ascensão como escritor e a causa de seu sucesso, e que não deixa nada a desejar se comparado com as suas obras mais famosas, e não menos perfeitas.