Ice -

    Anna Kavan

    Penguin Classics
    2022
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9780241597330

    Little Clothbound Classics: irresistible, mini editions of short stories, novellas and essays from the world's greatest writers, designed by the award-winning Coralie Bickford-Smith. Set in a frozen world that is gradually being devastated by ever-encroaching ice, Anna Kavan's masterwork follows one man's pursuit of a mysterious silver-haired girl to the ends of the earth; to the end of everything. 'Few contemporary novelists could match the intensity of her vision' J.G. Ballard

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    mpettrus22/10/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A Realidade Tênue e Elusiva do Gélido Mundo de Kavan

    “A conquista final da humanidade seria não só a autodestruição, mas a destruição de toda e qualquer vida; a transformação de um mundo vivo num planeta morto.” Ler esse livro me proporcionou uma experiência surreal, um labirinto através da casa dos espelhos onde a cada nova página parecia ser uma saída e uma solução, apenas para me deixar mais confuso do que já me encontrava na página anterior. Só há uma maneira de ler esse livro: lê-se com intensidade. Com uma indubitável intensidade agonizante deixando-se levar pelos caos que esconde na forma de um fenômeno climático devastador que espreita o mundo deste romance alegórico. Assumindo que nada é o que parece ser e que talvez a única certeza é que não podemos confiar em ninguém, incluindo (e especialmente), o narrador. O romance começa com um homem dirigindo por uma estrada escura. Termina com o mesmo homem ainda dirigindo, mas agora acompanhado. Ao longo do caminho, as viagens do homem (nenhum personagem é nomeado) o levam de navio para o avião através de campos de batalha e montanhas, através de redes de combatentes da resistência obscuros e para os banquetes cerimoniais de senhores militares. Neste mundo, a sociedade está acabando, fragmentando-se enquanto misteriosas paredes de gelo invadem habitações humanas e destroem relacionamentos políticos e pessoais. Há coisas mais estranhas também: mutantes, dragões, sacrifícios. Em meio a toda a ação, é difícil dizer o que é real e o que é de outra forma. O ‘Gelo’ é o grande protagonista da história. Tudo é gelo. Até mesmo as ações das personagens são gélidas, frias, distantes. Kavan, descreve um mundo à beira do apocalipse, com algum exagero científico não especificado que desencadeou uma onda de frio ameaçando enterrar a Terra sob montanhas de gelo que avançam constantemente. A leitura desse romance é fácil ao mesmo tempo em que também é difícil, haja vista, o narrador ser potencialmente delirante. Ou não confiável. E suas visões, relatos de seus sonhos ou pesadelos confundiam-me constantemente, porque eu me perdia da narrativa. E por vezes, foi difícil reencontrar o fio da meada. Essas visões de pesadelo introduziam um aspecto surreal à história, atingindo-me sem aviso prévio. No meio da descrição de alguma cena, por exemplo dirigindo pela estrada ou caminhando por uma cidade, a narrativa descritiva de Kavan de repente descia para uma sequência subsequente de eventos assustadoramente sombria e muitas vezes violenta. Então, tão abruptamente, ela mudava de volta para o presente real e continuava narrando sua história, sem qualquer reconhecimento da digressão perturbadora que ocorreu anteriormente. Eu ficava mentalmente exausto. As personagens são todas sombras sem nome girando em um contexto que muda de forma com a mesma frequência que permanece constante. Nós vemos seus movimentos e vislumbramos suas motivações, mas elas continuavam sendo enigmas. Esse romance foi notoriamente uns dos mais difíceis de descrever das leituras que fiz até agora em 2024. Vejamos: o mundo aqui apresentado é como o nosso, mas ao mesmo tempo surreal e incompreensível. Os países e cidades que este mundo contém não são nomeados, e nunca há nenhum sinal disponível que nos guie ao longo do caminho e nos mostre onde estamos. Não se tem certeza de como encontrar o que se está procurando; nem se tem certeza do que está procurando. Nem se tem certeza do que se está fazendo, por isso mesmo não parece estar indo nada bem. A escrita é poética porém, simples e nítida. De alguma forma, me trouxe vislumbres narrativos de algum outro escritor. Ballard é o que me vem à mente agora. O estilo narrativo é muito ‘Ballardiano’. A moça misteriosa, seu corpo e principalmente seus cabelos são constantemente associados ao gelo, vidro e brancura são repetidos obsessivamente, as transições entre realidade e alucinações são hábeis e dolorosamente vagas e o sentimento de doenças generalizadas é incrivelmente forte. Para além da parte ficcional do romance, acredito que há um teor extremamente sério sobre questões ambientais. O dilema de alerta global e migrações em massa são apenas uma ideia de que o ‘pior ainda está por vir’: o congelamento do Planeta Terra. Uma nova ‘Era do Gelo’ em meio a facções/governos em guerras globais, em conflitos alegorizando o colapso final da civilização que, com a nossa capacidade de acelerar, é aquele aviso atemporal sem soluções: a humanidade é o arquiteto de sua própria extinção. A partir disso, só podemos nos maravilhar com a beleza da destruição. Ou é tudo um sonho? O ‘Gelo’ é um perigo sempre presente, mas que é continuamente desconsiderado para dar espaço para o significado, um significado que também se quebra continuamente. Não há coisa certa a fazer, agir ou ser, o narrador, a garota e o guardião são todos colocados em um mundo fragmentado e perturbado, mas onde eles, como seres humanos, ainda lutam para criar significado. Um significado de suas próprias existências. O ‘Gelo’ não é a coisa mais assustadora, em vez disso, é a humanidade, sua capacidade para o mal e a crueldade. Entendi que o ‘gelo’ é provavelmente um produto da sociedade humana, o como e o porquê nunca é revelado e não é importante, o ‘gelo’ está aqui e o preço deverá ser pago. Quero frisar também que a narração hábil de Kavan fornece uma vantagem instantânea e mutável para o leitor se fazer de vítima, vilão, senhor da guerra, político, vagabundo e criança. Achei isso de uma habilidade notável. Confesso que fiquei abismado com essa façanha. Esse romance distópico é um olhar sobre as ações internas do homem, nossos corações e cérebros. Kavan descreve as coisas que vão além da linguagem, as coisas que emergem, quando a forma, as regras, a sociedade, quebram. 🇫🇷🧊🏔☢️☃️🕰⌛️

    107 curtidas

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    3.3 / 64
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