A antologia foi lançada em 2020, resultado de uma parceria da Editora Sebo Clepsidra e Editora Ex Machina, duas excelentes casas que vêm, ultimamente, proporcionando um frescor àqueles que, como eu, estão fartos das mesmices apresentadas no mercado editorial.
A proposta da antologia, que me lembro à época, em algumas lives feitas pelo Cid Vale, era de, além de traçar um panorama do fantasma na literatura clássica, resgatar alguns bons contos de terror que fugiam das repetitivas coletâneas do gênero, lançadas pelas editoras de maior vulto.
A organização do livro coube a Alexandre Meireles da Silva (dono do canal Fantasticursos â que eu particularmente adoro) e Bruno da Costa, sendo o primeiro responsável por um prefácio minudente e delicioso no qual discorre sobre o histórico e evolução do fantasma na literatura, inclusive no Brasil.
O livro é composto por 29 contos, indo desde Plínio, o Joven, que viveu por volta dos primeiros dois séculos da era cristã, a Coelho Neto, ativo entre a segunda metade do século XIX e início do Século XX.
Pelo excelente time de pessoas que se esforçaram, e muito, para nos trazer a obra, o resultado não poderia ser melhor. Certo que alguns contos são figurinhas carimbadas, como a Casa do Juiz, do nosso conhecido Stoker, e Ligeia, de Poe, mas são minoria dentre os excelentes causos relatados ao longo das narrativas. O conjunto das histórias mostrou-se eficaz e permite com que façamos uma bela jornada entre os espectros desse subgênero das histórias de fantasmas (não, não peço perdão pelo trocadilho mequetrefe).
Os contos que mais se destacaram na minha leitura foram O papel de parede amarelo, da Charlotte Perkins Gilman, que, muito apropriadamente, vem sendo cada vez mais debatido; Relato de alguns incidentes estranhos na rua Aungier, de Sheridan Le Fanu; A Esquina feliz, de Henry James, Assombramento, de Afonso Arinos, e As ruínas da Glória (Conto Fantástico), de Fagundes Varela.
Dentre essa seleção de favoritos, dois julgo serem verdadeira pérolas. São eles O papel de parede amarelo e A esquina feliz. O primeiro consegue se destacar não apenas pelo excelente desenvolvimento da escrita e originalidade da história, mas principalmente pelo subtexto e contexto histórico (ainda extremamente relevante). Já o último, conseguiu roubar minha atenção por fugir completamente da estrutura narrativa convencional das histórias de fantasmas. Henry James trouxe um enredo mínimo (um homem perambulando pela antiga casa de sua família) e mesmo assim conseguiu entregar tudo, a um nível de descrição psicológica do personagem que particularmente me impressionou.
Pensando bem, esses dois contos talvez sejam os mais desajustados de toda a antologia (no melhor sentido da expressão), porque tratam de fantasmas sem tratar efetivamente de fantasmas. Nos dois casos, aparentemente, o fantasma é uma alegoria para representar alguma séria questão enfrentada pelos personagens, e não meramente a alma de um defunto. Ou, talvez, não. Quem sabe? Os dois textos, a meu ver, conseguem levantar um bom debate acerca da realidade das aparições.
Antes de terminar, porém, gostaria de destacar dois pontos sobre o livro, que talvez merecessem a atenção das editoras que o produziram. Um, praticamente irrelevante, e outro que, embora pequeno, mereça uma atenção em especial.
O primeiro deles, que considero irrelevante, é um pequeno erro de digitação na nota de rodapé de número 3.
O segundo, um pouco mais relevante, é a introdução do conto O impenitente, de Aluísio de Azevedo, em especial o resumo da história. Nesse específico caso, além do resumo da história em nada se ajustar ao enredo do conto (basta uma ligeira comparação entre ambos para entender o que digo), ainda traz ao final um grande spoiler do que entendi ser a grande sacada do conto, isto é, com o que o Frei Álvaro se depara ao chegar à casa de Leonília.
Esses dois pequenos detalhes, contudo, se ofuscam ante a qualidade do livro, seja literária ou física â o livro é um dos mais bonitos que tenho na minha prateleira. Merece ser adquirido e apreciado com calma e com gosto, como tudo de extrema qualidade deve ser.
Se gostou da resenha, e curte literatura de horror e fantasia, gostaria de convidá-la (o) a conhecer algumas histórias que produzo. São pequenos contos, que disponibilizo na Amazon, gratuitamente, sempre que a plataforma me permite, além de estarem cadastrados no programa Kindle Unlimited. Quando não, estão sempre no valor mínimo que a plataforma impõe. Dê uma chance e um estímulo para esse rapaz continuar escrevendo ou encontrar uma casa editorial ð. O link está disponível aqui na resenha.
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