A Narrativa de Arthur Gordon Pym -

    Edgar Allan Poe

    Carambaia
    2023
    312 páginas
    10h 24m
    ISBN-13: 9786554610223
    Português Brasileiro

    Único romance escrito por Edgar Allan Poe (1809-1849), A narrativa de Arthur Gordon Pym provocou reações entusiasmadas de outros escritores ao longo dos anos. Entre os admiradores que se debruçaram sobre o relato macabro engendrado por Poe estão Henry James, H. P. Lovecraft, H. G. Wells e Jorge Luis Borges, que o considerava a melhor obra do autor americano. Jules Verne escreveu uma sequência (A esfinge dos gelos) e Charles Baudelaire traduziu o texto de Poe para o francês. Além disso, é dado como certo que Herman Melville se inspirou em Arthur Gordon Pym para criar Moby Dick. Não é difícil entender esse fascínio. A narrativa de Arthur Gordon Pym está à altura da atmosfera sinistra dos melhores contos de Poe e da precisão de seus poemas. A história se apresenta como se tivesse sido contada a Poe por um homem preservado sob o pseudônimo Arthur Gordon Pym. O texto da narrativa procura verossimilhança nos menores detalhes, como ao descrever a engenharia do navio ou ao precisar as coordenadas de localização no oceano. Pym é um jovem com espírito aventureiro que embarca como clandestino no baleeiro Grampus, que parte da costa leste dos Estados Unidos rumo aos mares do Sul. Seu melhor amigo é filho do capitão do navio. Proibido de viajar por sua família, Pym se esconde num compartimento sob o convés para só aparecer em alto-mar, quando seria impossível devolvê-lo à terra firme. A permanência no esconderijo se prolonga e transforma-se num pesadelo, enquanto acima de sua cabeça irrompe um motim. Os dois amigos se unem a um amotinado arrependido e partem para a retomada do controle do navio – o que envolve uma artimanha para se aproveitar da superstição da tripulação rebelde. Num crescendo de terror, o destino de Pym será uma sequência de tragédias e passagens insólitas envolvendo tempestades destruidoras, canibalismo e um navio fantasma. Recolhido por um barco de caça a focas no mar da costa da África do Sul, Pym participa de uma expedição à Antártida. No caminho começa uma nova aventura, digna de As viagens de Gulliver. O enredo se encaminha para um desenlace espetacular. Poe começou a escrever A narrativa de Arthur Gordon Pym depois de ouvir de um editor que o público leitor preferia os textos longos aos contos, especialidade do escritor. Ele acertou com a chefia da revista onde trabalhava, Southern Literary Messenger, a publicação seriada dos capítulos do romance. A série foi interrompida quando a revista o demitiu, ao que tudo indica por causa de seus excessos alcoólicos. Meses se passaram até que Poe, pressionado por dificuldades financeiras, terminou o romance. O livro saiu em julho de 1838 pela editora Harper & Brothers.

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    Régis Maz22/09/2024Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    Uma aventura envolvente e visceral

    Vou iniciar esta resenha dizendo que foi muito bom ler este livro após ter lido No Coração do Mar. Assim, pude identificar paralelos entre os eventos reais vividos pelos tripulantes sobreviventes do naufrágio do Essex em 1820 e a história desenvolvida por Poe sobre Pym, Dirk Peters, Augustus e Richard Parker a bordo do baleeiro Grampus, publicada em 1838. A história começa como se fosse um relato verídico narrado em primeira pessoa e intercalado com anotações semelhantes a um diário de viagens. Pym descreve seu embarque clandestino no navio com a ajuda de seu melhor amigo Augustus (filho do capitão do baleeiro), descreve também o motim a bordo, a tempestade monstruosa que enfrentaram, o naufrágio, a fome, a sede, os tubarões, o canibalismo, o encontro com um navio fantasma à deriva, o resgate por outro baleeiro (o Penguin) e suas viagens em busca de alcançar a Antártida. A narrativa me manteve envolvida do início ao fim, apesar de alguns elementos que me fizeram revirar os olhos e tiraram um pouco da imersão. Por exemplo, a ausência de um tanque de ferro no Grampus para armazenar o óleo das baleias que supostamente iriam caçar, alguns desmaios pouco convincentes do protagonista, o clichê de perder a voz nos momentos mais inoportunos e o surgimento repentino do cachorro do protagonista a bordo do navio, que é retirado da história sem qualquer explicação (simplesmente para de ser mencionado após o naufrágio, possivelmente por esquecimento do autor). Além disso, o motim apresenta um aspecto totalmente inverossímil para mim: por que os amotinados matariam 22 homens e deixariam os cinco restantes, incluindo o capitão e seu filho, vivos? Afora essas pequenas falhas, a história é extremamente envolvente. O narrador protagonista é cativante, assim como seus companheiros de aventura. Edgar Allan Poe possui uma escrita fluída e envolvente, e, na obra em prosa mais extensa publicada por ele, demonstra uma habilidade impressionante e convincente em imaginar uma jornada de muitos meses no mar com notável nitidez. A história tem um ótimo ritmo, mas o final deixa um gostinho de incompletude. Sinceramente, eu adoraria que a narrativa continuasse. O relato de Pym é uma mistura de livro de memórias com aventura marítima, diário de viagens com um toque de ficção sobrenatural. E ainda há "verbetes" inseridos ao longo da história e, principalmente, durante a segunda metade, imagino eu, para dar credibilidade à afirmação do autor de que esse era um relato verossímil. Li que o livro foi muito criticado por suas passagens de extrema violência e imprecisões náuticas, e para uma história que se vendia como uma sóbria verdade, isso não foi muito bom. Entretanto, o livro foi lido por Júlio Verne, que gostou tanto que escreveu uma sequência em 1897 com o nome de Mistério Antártico. Só assim Poe ganhou o reconhecimento merecido por seu livro. Este livro foi uma grata surpresa para mim. Adorei encontrar uma ficção marítima que se encaixasse tão bem com os últimos livros do gênero que li. O ritmo e a experiência visceral em determinados momentos da narrativa me conquistaram e tornaram A Narrativa de Arthur Gordon Pym um ótima leitura de aventura. Recomendo a todos que curtem aventuras marítimas.

    70 curtidas

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