A admiração que tenho por Júlia Lopes de Almeida ganha mais força à medida que me aventuro por suas obras. Cada livro seu que escolho ler carrega, além de uma escrita maravilhosa, o talento genuíno de uma mente criativa que se derrama e se expande através das páginas.
A cada obra lida, torna-se mais inacreditável constatar que meu primeiro contato com a autora ocorreu apenas na vida adulta. Na minha trajetória escolar, até onde a memória alcança, seu nome jamais foi citado, permanecendo ofuscado por autores masculinos.
Por que Júlia não foi mencionada junto aos grandes nomes da nossa literatura quando se estudava o cânone nacional? Pela mesma razão que lhe negou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, a qual ela ajudou a fundar: o fato de ser mulher.
Felizmente para nós, amantes de boas histórias, Júlia tinha talento e convicção de sobra para ousar usar a escrita como veículo para sua voz em uma sociedade que exigia das mulheres silêncio e submissão. Em vez de se diminuir para caber no papel ditado pelo patriarcado, ela escolheu se posicionar abertamente contra o racismo, o machismo e outras formas de preconceito.
Em "Era uma vez", ela nos presenteia com um conto de fadas ousado, cuja princesa se distancia muito do ideal de doçura e bondade esperado de alguém com tal título. A protagonista era dotada de beleza, mas faltava-lhe altruísmo. Júlia, então, conduz a personagem, a princípio odiosa, por uma jornada de amadurecimento guiada pelas perspectivas e experiências de outros indivíduos, ensinando tanto à personagem quanto ao leitor o significado prático da empatia e destacando a importância da imaginação.
Explorar a obra de Júlia atualmente, aproveitando qualquer oportunidade para enaltecer seu legado, é uma reparação histórica e uma forma de fazer justiça a ela e a tantas outras mulheres talentosas que sofreram o apagamento social.