A Crique, em Caiena, Guiana Francesa, é, desde sempre, um bairro popular, encurralado por seu canal, com sua população mestiça, fervilhante; homens e mulheres de vida difícil. Então, quando se torna alvo de especulações imobiliárias, forçando sua gente a um novo êxodo, surge uma delas, uma jovem sobrevivente milagrosa da vida, resgatada da AIDS: Félicia, porta voz do movimento social, animada por uma incrível energia, porém dividida entre a busca por justiça e a busca por amor. É ela quem nos leva a uma longa procissão onde lutas e confrontos se interpõem entre o sonho e a realidade, entre a tradição e a modernidade. E lá está Man Flo, avó simbólica cuja dinâmica se inscreve nos ritos e crenças populares; Xavier, o corretor de imóveis, um amor improvável; e Pablo, o garimpeiro clandestino com seu destino mutilado, o revelador do cataclismo redentor. Se, enfim, Félicia se lança nessa jornada, é apenas para se reencontrar, para reencontrar, em silêncio, esse amor que tanto amor perdeu. A Crique é uma profusão, uma galeria de personagens da diversidade cultural, envolvidos numa história em comum, num impulso de resistência, peças de um quebra-cabeça em uma atmosfera própria, em uma vibração absolutamente particular.
A Crique -
Sylviane Vayaboury
Impressões da Carol
Livro: A Crique {2009} Autora: Sylviane Vayaboury {Guiana Francesa, 1960-} Tradução: René Duarte Editora: Peabiru 184p. Tal qual a americana que se apaixonou por nosso Machado de Assis, cumprindo o desafio de ler um livro de cada país, adoro marcar um "x" diferentão no meu atlas literário pessoal. E com "A Crique", de Sylviane Vayaboury, finalmente tive contato com a literatura da Guiana Francesa. Crique é o nome de um dos bairros periféricos de Caiena, capital guianense. Cenário e personagem central desse romance-denúncia, que traz à luz a resistência das comunidades ameríndias e afro-guianenses à crescente especulação imobiliária local. A escrita de Sylviane Vayaboury é mesmerizante, uma voz ali entre o sonho e a realidade, bastante imagética. Dá gosto ler em voz alta alguns trechos. Fica registrado meu elogio à tradução da edição brasileira que consegue transpor toda a musicalidade da língua franco-crioula para o português. Um trabalho, tenho certeza, complexo. "Bastava um ouvido atento. Poderia responder a todas as perguntas, todas as interrogações, sustentar todas as teses. Qual era o cheiro dos tempos antigos? Caiena de duas cabeças, Caiena e seu canal Laussat escavado até o mar, ligado à direita e à esquerda sob o olhar ainda benevolente do seu construtor-governador, Pierre-Clément, barão de Laussat. Caiena-canal, Caiena-Crique, atravessada na sua margem esquerda pelo bairro deitado e elevado, pobre e quente, subúrbio sul coberto de minérios, chamado 'Vila Chinesa', marcado com o selo de 'Chicago'. Um olhar treinado bastava." p.3 Felícia. Man Flo. Xavier. Pablo. Lisa. A Crique. Sylviane Vayaboury costura um romance polifônico, um panorama cultural, social e político de Caiena. E, pra minha surpresa - por desconhecimento da história desse nosso país vizinho -, a ligação estreita da Guiana Francesa com os brasileiros que vivem por lá, desde a década de 1980. É justamente isso, a surpresa, que me entusiasma ao ler autores fora do eixo EUA-Europa. Novas histórias. Novos olhares. Aprendizados. Foi uma experiência de leitura muito satisfatória. Sylviane Vayaboury é mais uma autora contemporânea cuja obra vale demais conhecer.
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