Um livro quase a frente de seu tempo
Esse livro é, sem dúvidas, um dos mais icônicos da ficção científica e, antes de qualquer coisa, ele não ter sido publicado até hoje no Brasil é uma vergonha sem tamanho, ainda mais considerando seu peso e influência. Essa é a origem e a inspiração de obras como Halo e demais filmes, livros e jogos que abordam essas proezas da megaengenharia. Dito isso, esse livro me deixou com um gosto amargo na boca. Certas partes desse livro são ficção científica no seu auge durante a New Wave. Momentos de tirar o fôlego, e talvez o Ringworld em si não seja a coisa mais impressionante no livro. Algumas descrições são épicas, fenômenos astronômicos em uma escala tão grande que você se sente pequeno e maravilhado. As raças alienígenas são um fenômeno à parte. Os puppeteers, espécie alienígena no livro, têm uma descrição tão aberrante que chega a ser difícil de imaginar, provavelmente minha espécie favorita do livro. Já os kzin também são interessantes, mas menos inspirados; são os clássicos homens-gato. No entanto, sua cultura é bem diferente da humana, com um foco na guerra e na honra, mas nada particularmente notável. Vale citar que existe uma série inteira voltada às guerras kzin-humanas que parece bem interessante, provavelmente irei ler posteriormente. A respeito da aventura em si, ela é bem leve, nada particularmente revolucionário. As discussões e o funcionamento do Ringworld são impressionantes. É uma história de sobrevivência em um ambiente hostil, com um elenco bem pouco ortodoxo. Particularmente, acho a resolução dos mistérios a parte mais fraca do livro, e a resolução de um dos personagens me incomodou bastante. Esse personagem em questão está ligado intrinsecamente ao maior problema desse livro: ele parece retrógrado no que se trata de misoginia, as personagens femininas são muito mal escritas. Temos duas personagens femininas nesse livro; uma delas age de maneira extremamente caricatural e infantil, já a outra é sexualizada em quase toda cena em que aparece (não que seja muito diferente da primeira). Louis, o protagonista, tem pensamentos e opiniões manipuladoras no que diz respeito às mulheres, e a escrita os endossa. Em um momento específico, Louis reflete que, se pressionasse Teela o suficiente, ele poderia facilmente controlá-la. Essa foi a cena mais marcante nesse aspecto, mas, hora ou outra, você se depara com um machismo surpresa. Um outro ponto negativo que me deixou um pouco fora da história é como a narrativa lida com sorte. O livro é bem hard sci-fi em alguns pontos, mas, na narrativa, sorte é quase um fator genético e se desenvolve quase como um superpoder. O que me pareceu um tanto fora de lugar e desconectado do restante da história. A importância que isso teve no final do livro enfraquece o ato final. *Tinha esquecido durante a escrita da resenha, mas vale destacar também que as duas espécies alienígenas do livro tem suas fêmeas descritas como irracionais, não sei como ser mais sexista que isso.


