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    A Malnascida -

    Beatrice Salvioni

    Alfaguara
    2023
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-13: 9789897848728
    Português
    4.1
    17 avaliações
    Leram23Lendo1Querem75Relendo0Abandonos1Resenhas2
    Favoritos0Desejados75Avaliaram17

    Com ecos de autores como Natalia Ginzburg, Alberto Moravia ou Elena Ferrante, eis a estreia fulgurante de uma escritora cuja mestria literária se dedica, neste romance, à procura da origem do mal e dos obstáculos à liberdade individual. Monza, Itália, 1936. Francesca, de 13 anos, está nas margens do rio Lambro, vergada sob o peso de um homem morto que tentou violá-la. Maddalena, amiga de Francesca, sai da água e ajuda-a a livrar-se do corpo: escondem-no no meio de arbustos. Este momento é um marco inolvidável na relação entre as duas raparigas, que começa um ano antes, quando Francesca se deixa fascinar por aquela a quem todos chamam «A Malnascida»: uma rebelde de origens humildes e com estranhos poderes. Contrariando a vontade da sua mãe, obcecada pelas convenções sociais burguesas, e ignorando os rumores que atribuem várias mortes à «Malnascida», Francesca junta-se ao seu bando de amigos «problemáticos», ávida por descobrir um modo de vida em absoluta liberdade. Entre as duas amigas, contudo, imiscui-se a guerra e o fascismo. Francesca e Maddalena terão de fazer uma difícil escolha: aliar-se contra a opressão social e a injustiça, ou deixar que o curso da História as separe para sempre. A Malnascida é o elogiado romance de estreia da italiana Beatrice Salvioni, distinguido com o prémio literário Scuola Holden, criado pelo premiado escritor Alessandro Baricco. Uma inesquecível história de amizade e crescimento, sob o pano de fundo da Itália fascista

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    Alan santana10/04/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Uma história sobre o poder do amor, mesmo quando o que reina é a miséria humana.

    "O Jesus de bronze e ouro no fundo do altar continuava a fitar-me, mas eu fitava-o por meu lado e perguntava-lhe: << Porque é que permitiste que tudo isso acontecesse? Certos livros chegam até nós como um sussurro – e outros como um trovão. A Malnascida começou para mim como uma curiosidade qualquer, mas logo nas primeiras páginas percebi que estava diante de algo raro. Uma daquelas histórias que parecem falar diretamente à alma — não por causa de grandes reviravoltas ou de um ritmo vertiginoso, mas porque a voz da autora carrega uma serenidade inquieta, quase ancestral. Há uma dor silenciosa em cada linha, uma tensão subterrânea, e um chamado claro: “Preste atenção. Isso aqui importa.” A trama se desenrola em Monza, no norte da Itália, durante o verão de 1936. Um tempo e um lugar marcados pela opressão — não apenas a política, imposta por um fascismo em franca expansão, mas também aquela mais íntima, mais difícil de nomear: a que se infiltra nas casas, nas escolas, nos gestos contidos das mulheres e nas palavras jamais ditas. Francesca, a protagonista, é uma adolescente de família burguesa, criada por uma mãe obcecada por decoro, aparência e reputação. Ela vive sufocada por um mundo que já decidiu quem ela deve ser, antes mesmo que ela tenha a chance de descobrir quem é. O romance se abre com uma cena de enorme gravidade emocional. Francesca está à beira do rio Lambro, vergada sob o peso do corpo de um homem morto que tentou violá-la. Maddalena, sua amiga, emerge da água e a ajuda a se livrar do cadáver — escondem-no entre os arbustos. A partir desse ponto, a narrativa retrocede no tempo para revelar o início daquela amizade intensa, proibida, vital. Um vínculo que se formou um ano antes, quando Francesca se deixou fascinar por aquela a quem todos chamam de “a Malnascida”. Maddalena é filha de uma mulher pobre, vive à margem da cidade e é vista como uma figura quase mítica — dizem que tem poderes, que atrai o mal, que onde ela passa, algo sempre morre. Mas Francesca enxerga algo muito diferente: vê liberdade. Maddalena vive sob suas próprias regras. Fala o que pensa. Não se curva. E carrega uma coragem desconcertante, justamente porque não pode ser controlada. Ao se aproximar dela, Francesca descobre o que existe além dos muros sufocantes da sua casa, além da escola catequizada, além do medo constante de “manchar o nome da família”. A amizade entre as duas meninas é visceral. Mas não é romântica nem idealizada: é feita de cumplicidade e desencontros, de pactos secretos, de pequenas mágoas e descobertas sussurradas — como só as amizades adolescentes mais intensas costumam ser. Juntas, elas formam uma dupla que desafia tudo: o fascismo, o machismo, a moralidade de vitrine, a ordem social, o destino previamente traçado para meninas que nasceram “no lugar certo” — ou no errado. Beatrice Salvioni escreve com precisão e equilíbrio notáveis. Sua prosa é clara, sem jamais ser fria; delicadamente poética, mas sem artifícios. Ela respeita o silêncio entre as frases, o tempo das emoções, e confia na inteligência do leitor. Nada é dito em excesso, e é justamente por isso que cada revelação tem tanto peso. O contexto histórico é uma presença constante, mas nunca didática. Ele aparece nos uniformes das crianças, nas canções que se ouvem ao longe, nos nomes sussurrados, nas regras que ninguém ousa quebrar. O fascismo não grita — ele paira. Está no ar, como uma poeira fina que se deposita sobre tudo, até mesmo sobre os sentimentos. Ler A Malnascida é mergulhar num tempo em que ser mulher — e, mais ainda, ser menina — significava viver tutelada por todos os lados. É também perceber como certos grilhões se arrastam até hoje. Francesca e Maddalena são personagens memoráveis porque não são heroínas nem mártires: são humanas. São falhas, impulsivas, complexas — e por isso mesmo inesquecíveis. Recomendo este livro a quem busca mais do que entretenimento. A quem quer sentir a história pulsar sob a pele. A quem gosta de narrativas que não apenas contam, mas ecoam — e que lembram que, às vezes, o ato mais revolucionário que uma menina pode cometer… é escolher sua amiga. Ao fechar o livro, fiquei com aquela sensação agridoce que só a boa literatura provoca: a de ter vivido algo que não era meu, mas que agora faz parte de mim. Francesca e Maddalena seguirão comigo. Com suas escolhas, suas cicatrizes, e aquela sede indomável por liberdade — a mesma que, no fundo, nós leitores carregamos.

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    • 4 estrelas59%
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    • 2 estrelas6%
    • 1 estrelas0%
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    Beatrice Salvioni

    Beatrice Salvioni nasceu em Monza, Itália, em 1995. Formou-se em filologia moderna pela Universidade Católica de Milão. Foi aluna da Scuola Holden, dirigida por Alessandro Baricco, e ganhou os prmios Calvino e Raduga em 2021. A amiga maldita é o seu primeiro romance, com o qual conquistou o prêmio Scuola Holden e cujos direitos foram vendidos para 32 países antes mesmo da publicação em italiano. O livro está sendo adaptado para série televisiva.

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    Beatrice Salvioni