Enquanto Cervantes adiava em dez anos a publicação do segundo tomo de seu Quixote, um certo Alonso Fernandez de Avellaneda tomava a dianteira e publicava por conta própria a segunda parte de Dom Quixote em 1614. Tal atrevimento paparentemente não era passível de condenação naqueles tempos: prova-o o veredito de Conselho Real, que examinou e logo liberou os originais do livro, nada encontrando neles que fosse "cosa deshonesta, ni prohibida". E quanto à qualidade? O livro apócrifo, sem ter a genialidade do modelo, possui inegável valor literário. Suas situações são sem dúvida hilariantes, além de possuírem como marca registrada o tempero forte da linguagem bem mais desabusada, que às vezes atinge níveis rabelaisianos de grotesco e de "grossura". Alguém asseverou certa vez que o livro de Avellaneda seria considerado uma verdadeira obra de arte... se nunca tivesse havido o livro de Cervantes. Talvez não chegue a tanto; mais é um livro bem escrito - isto é fora de questão. Com efeito, falta grandiosidade no seu Quixote, falta pureza no seu Sancho, mais isto é porque Avellaneda preferiu acentuar a loucura do fidalgo e realçar Sancho como bufão e glutão. Se o dramático saiu perdendo, o cômico pôde ser potencializado, sucedendo-se situações engraçadíssimas. Em resumo, além de sua importância, como um complemento da obra de Cervantes, temos em mãos um livro que indubitavelmente haverá de trazer ao leitor(a) momentos de agradável leitura, comicidade e plena satisfação.
Dom Quixote Apócrifo -
Alonso Avellaneda
As outras ilustres façanhas do insigne cavaleiro sem-par Dom Quixote de la Mancha
Após a publicação, em 1605, de seu famoso O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes alcançou certa notoriedade e reconhecimento. Ainda que prometesse uma continuação para sua mais famosa história, adiantando inclusive que em um posterior segundo tomo Quixote iria tomar parte nas célebres "justas de Saragoça" (ou Zaragoza), o fato é que nos anos subsequentes, decidiu se dedicar à produção de novelas, poesias e peças de teatro, que nunca lhe renderam o prestígio de sua mais grandiosa criação. Foi então que, em 1914, a pessoa por trás do pseudônimo Alonso Fernández de Avellaneda publicou o presente livro, o "Segundo Tomo del Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha". Há quem diga se tratar do plágio mais famoso da história da literatura. Entretanto é preciso cautela ao se pretender afirmar isso, visto que a ideia de direitos autorais era embrionária no período. Segundo o Wikipédia, é somente em "1710, que entra em vigor aquela que ficou conhecida como a a primeira lei de direitos autorais conhecida, o Estatuto da Rainha Ana". Polêmicas à parte, com seu livro Avellaneda procurou dar sequência à história principiada pelo primeiro tomo de Cervantes, e inclusive, durante sua narrativa, conduz Dom Quixote até as justas de Saragoça, aventura que Cervantes havia prometido. Este acontecimento fez com que, no capítulo 59 de seu segundo tomo, finalmente publicado em 1615, Cervantes descrevesse Dom Quixote travando conhecimento com o livro apócrifo de Avellaneda, e o censurando em vários pontos. Informado que no livro apócrifo o autor havia escrito sobre uma sua aventura em Saragoça, Dom quixote que até então tenciona para lá ir, decide: <i>"[...] não porei os pés em Zaragoza e assim mostrarei ao mundo a mentira desse históriador moderno [Avellaneda], e as pessoas poderão ver como eu não sou o dom Quixote de que ele fala."</i> (p. 519; segundo tomo de Dom Quixote; edição penguin companhia.) É isso mesmo. Cervantes rompeu sua promessa de levar seu cavaleiro até as justas de Saragoça para com isso deslegitimar o livro de Avellaneda. Bem, toda a história que envolve esse livro apócrifo é bastante interessante, mas chega de tratar dela. Em verdade, o livro em si sem dúvida tem suas qualidades. De fato Avellaneda acentua a loucura de Dom Quixote e a tolice de Sancho Pança, opção a partir da qual temos que, como bem aponta o texto da orelha desta edição: "Se o dramático saiu perdendo, o cômico pôde ser potencializado." No que se refere à ambientação, Avellaneda simula de maneira eficaz a criada por Cervantes. Na dimensão da linguagem, o autor consegue emular bastante bem a original. Ah, como eu adoro os discursos grandeloquentes de Quixote, cheios de pompa e magnificência, como bem precisam ser para fazer jus à enorme fama de seu bom nome, que ecoa e espalha-se pelos quatro cantos da infinita orbe!; ao grande valor de sua pessoa!; à inapreensível fortaleza de seu braço!; à inexpugnável nobreza e honra de sua condição de invicto cavaleiro andante, empenhado a percorrer o mundo suportando intoleráveis frios e fastiosos calores, enfrentando temerosos desafios, duelando com outros excelsos cavaleiros, castigando vilões, defrontando robustos gigantes, encarando encantamentos de malignos feiticeiros, combatendo descomunais dragões, e tudo isso com a caridosa intenção de suprimir injustiças, desfazer agravos, acudir desamparados, socorrer honrados nobres, zelar por formosas donzelas, defender enormes castelos... Ai, ai. Perdoar-me-ão vossas mercês, mas me empolguei!... Enfim, gostei bastante do livro e de várias aventuras aqui relatadas. Em vários episódios me diverti; além disso ri em outras tantas oportunidades. Penso que facilmente vale a leitura. A única ressalva que faço é essa edição que, mesmo trazendo bom tamanho de fonte, tradução das frases em latim e ilustrações (achei bem feias na verdade), peca muito ao conter também, uma diagramação apertada sobretudo na parte mais interna da página próxima à lombada e erros de revisão em quantidade muito além do que poderia ser compreensível. Ao menos é louvável a republicação de um livro tão importante e pouco distribuído quanto este... CURIOSIDADES: O livro de Avellaneda chegou a ser submetido ao Conselho Real que o examinou e logo outorgou a licença para a publicação, neles nada encontrando que fosse "cosa deshonesta, ni prihibida". (A mencionada licença consta nesta edição). A licença para publicação deste livro apócrifo data de julho de 1614. Sabe-se que Cervantes, nesse período, escrevia o capítulo 36 de um total de 74 de seu segundo volume, o que parece enfraquecer a teoria de que, foi a publicação de Avellaneda que impulsionou Cervantes a finalmente publicar sua continuação. (Informação extraída da primeira nota de rodapé do capítulo 59, do volume dois, na edição da penguin companhia)
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